Traduzir é preciso: nota sobre o 81º Congresso do PEN Internacional, realizado em Québec City, de 13 a 16 de Outubro de 2015

 

“Empresta-me uma língua” – assim principia o poema de Djibril Hamet, que chegara ao local do Congresso e Assembleia-Geral anual para ter a alegria de ver o seu Centro admitido nessa família que entretanto conta mais do que 150 membros /Centros. Uma língua para saborear os gostos, para falar todas as línguas – reza o poema. Ao inverso do seu colega de Mali, Djibril não chegou a saborear o acolhimento dado pelos seus colegas, sobretudo depois de saberem que se encontrava no hospital, gravemente doente. Já depois de terminados os trabalhos, acabou por falecer, vítima de uma leucemia não detectada no país de origem, vítima da ausência da mais elementar assistência médica, num país explorado pelos seus recursos do subsolo.

Trata-se de um “assunto do PEN?” Claro que sim. A defesa da liberdade de expressão tem como base a criação das condições de possibilidade de uma vida digna para traduzir e criar em liberdade – tal foi o tema deste Congresso e desta Assembleia acolhidos no nicho francófono e autóctone do Canadá. As três cadeiras vazias estavam lá para o lembrar – nos 3 dias da Assembleia homenageou-se o blogger e editor Raif Badawi, da Arábia Saudita (na presença da mulher e dos 4 filhos pequenos), o poeta Amanuel Asrat da Eritreia e o hondurenho Juan Carlos Arsenal Medina. Mas não só de escritores e jornalistas perseguidos se ocupa o PEN, mas também de línguas minoritárias, cujo estatuto deve ser reconhecido como solo de criação literária – o occitano, por exemplo, objecto de uma resolução contra o menorização que lhe é votada por franceses e italianos. Mas também a língua portuguesa, vítima da guilhotina trituradora de um grafolecto computadorizado, se viu mencionada através de uma resolução apresentada pelo Comité de Tradução e Direitos Linguísticos, a quem se deve esse documento único sobre o estatuto e os direitos dos tradutores, que foi aprovado – tal como as resoluções – e se tornará num útil instrumento de trabalho e de pressão.

O que fica então de quatro dias de júbilo e tristeza, agitação e cumplicidade? Como as folhas ruivas que na floresta canadiana se vão transformando em húmus, a vida do PEN toma agora um novo rumo com a eleição de uma nova presidente, Jennifer Clement do Centro do México, perfeitamente bilingue em inglês e espanhol e com larga experiência de intervenção nas causas que mantêm aquele país como refém nas últimas décadas. Debateu-se, numa sessão animada pela indignação e em que pontificou o jornalista de guerra Chris Hedges, os condicionamentos dfa liberdade de expressão pelas corporações mediáticas. Foi dado o prémio New Voices Award à jovem escritora galesa Rebecca F. John. Homenageou-se, numa sessão pública infelizmente desertificada devido à hora tardia, o empenhamento do presidente cessante, John Ralston Saul, nos últimos seis anos – foram-lhe oferecidas primeiras edições dos primeiros presidentes do PEN H.G. Wells e John Galsworthy. E na recém-inaugurada Maison de la Littérature, fascinante restauro de uma antiga igreja da comunidade presbiteriana na qual só as cores do papel das livros sobressaíam no branco, lemo-nos e ouvimo-nos mutuamente numa “Babel” que durou até perto da meia-noite e nos reconforta sobre o sentido de o PEN existir, muito em breve celebrando o seu primeiro centenário. TS

Imagens: As 3 candidatas à presidência – Vida Ognjenovic (Sérvia), Zeynep Oral (Turquia), Jeniffer Clement (México); a família do blogger Raif Badawi; a nova equipa do Board (direcção) do PEN Internacional

 

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