Sessão de entrega dos prémios PEN para as obras publicadas em 2014, realizada na SPA em 4.12.2015

Realizou-se na SPA, em 4 de Dezembro de 2015, a sessão de entrega dos prémios PEN para as modalidades de Poesia, Ensaio, Narrativa e Primeira Obra, na presença da Secretária de estado da Cultura, Isabel Botelho Leal e dos presidentes da SPA e do PEN, respectivamente José Jorge Letria e Teresa Salema.

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Palavras iniciais da Presidente do PEN

Vai o PEN Clube Português distinguir publicamente, na sua 36ª edição anual, obras literárias numa paleta diversificada de géneros e de tendências, fruto da ponderação crítica e livre dos respectivos júris, e de cujas razões os seus porta-vozes nos darão conta já a seguir. Isto que se tornou uma evidência desde que finalmente foi tornado possível criar em Portugal um Centro PEN após tentativas frustradas nos anos 20 e 40, não o é em muitos países do globo – países em que existem Centros PEN que operam contra múltiplas formas de censura aberta ou velada. Nestas condições, parecem estar ultrapassados em Portugal os “esforços das montanhas”, nas palavras de Bertolt Brecht num poema tardio, esforços esses manifestados, por exemplo, na tentativa quase heróica de Alves Redol em 1947 para fazer vingar um Centro PEN português, Centro esse vergonhosamente reprimido pela ditadura.

Parecerá então que temos presentemente diante de nós os “esforços das planícies” – citando ainda o mesmo poema – que permitem que centremos a nossa atenção na vertente literária, sem esquecer as obrigações de cidadania internacional que caracteriza os 145 Centros PEN em todo o mundo.

Devemos porém interrogar-nos se é possível manter tal perspectiva em boa consciência. Se é certo que as sucessivas direcções do PEN vêm cumprindo esta complexa tarefa de selecção criteriosa, com o apoio das sucessivas Direcções-Gerais do Livro (Arquivos e Bibliotecas), às quais nunca estaremos suficientemente gratos, países há onde esta tarefa, ou outra semelhante, pode revelar-se uma arriscada missão. Não vos vou falar de prémios em defesa da liberdade de expressão atribuídos em países em que sabemos que esta não existe. Vou trazer-vos um exemplo europeu muito recente. Há poucas semanas recebemos a alarmante notícia do cancelamento impositivo da cerimónia de entrega de vários prémios literários (carreira, resistência à ditadura, Escritor do Ano, Poeta do Ano) que o Centro PEN albanês se preparava para entregar no Museu Nacional de História. O facto de os nossos colegas terem transferido a cerimónia para um café de Tirana deu lugar a perseguições movidas à Presidente do Centro PEN albanês, de modo a fazê-la solicitar apoio ao Comité Internacional de Escritores na Prisão, que trata igualmente de problemas de escritores perseguidos ou em risco.

A narrativa factual deste caso é, como facilmente podemos deduzir, apenas a ponta visível de uma complexa convulsão geopolítica que não deixa de fora países como o nosso, onde porventura era possível manter uma ilusão securitária articulada com garantias constitucionais. Mas é a grande literatura, assim como a grande arte, que sempre nos remeteu para os momentos trágicos da teia do mundo, momentos que só surgem de forma surpreendente a quem pretende iludi-los com a espuma dos dias da chamada cultura de massas, com um forçado aligeiramento que pretende recalcar os factores que permitem uma vida de bem-estar á custa da exploração de recursos alheios, numa arrogância neocolonialista que se vinga em explosão no coração das nossas cidades.

É aqui que se torna premente uma necessidade de prestar uma atenção sensível aos fundamentos do lado mais elementar das nossas vidas, esse que nos lembra os “esforços das montanhas” com que se defrontaram os grandes criadores de toda a história da literatura e que por isso os impediam de perder o contacto com o húmus da apreensão, com os laços da compaixão, com a medida das coisas. Devemos à literatura, àquela que nos mantém despertos, a companhia nas nossas interrogações sobre correlações e contextos, sobre os efeitos letais da indiferença hedonista, sobre a pseudo-consolação de fórmulas administrativas ou – mais grave ainda – de um didactismo pedante que passa ao largo das inquietações dos jovens e os empurra para um radicalismo de efeitos indesejáveis. Sim, são também nossos os problemas dos despojados deste mundo, de populações privadas de recursos para que possamos manter luzes acesas, aquecimentos ligados e o fácil transporte individual nas nossas cidades.

Tudo é coisa nossa, matéria nossa que contudo não pode ser trabalhada como matéria bruta e exige um empenhamento cidadão a vários níveis. Em termos literários, o desafio é colossal devido às múltiplas camadas de sentido e tratamento que se desdobram aos nossos olhos, às nossas mentes, às nossas mãos. Que fazer, como fazer? Impossível dar uma resposta a tais questões. Tão-pouco é essa a intenção destas palavras – apenas lembrar a responsabilidade que surge em cada dobra de liberdade de criação, e que se traduz na responsabilidade dos juízos sobre a mesma.

E é também por isto que devemos congratular-nos pelo facto de a Cultura ter sido reconhecida pelo governo actual como um elo primordial de sensibilização para a totalidade de questões que nos envolvem na presente situação global. Se é um facto que a literatura, a verdadeira, sempre tem sido capaz de responder a estes e outros desafios, é igualmente inegável que uma estrutura administrativa, a nível ministerial, que possa ser suporte e garante da criação artística e literária com uma amplitude que a torne acessível a mais amplas camadas populacionais, só pode ser vivamente saudada.

A nós escritores cabe-nos o desafio de criar. Mas não só. Cabe-nos também demonstrar, nas dobras dessa mesma criação, que é possível romper o aparente círculo vicioso de contaminação entre democratização e banalização. Não tendo medo das palavras, por exemplo. Ocorre-me aqui a exortação, por Montesquieu, dessa virtude republicana que não é apenas um resquício de herança clássica mas que requer a cada instante um empenhamento cívico de que não podemos deixar de tentar manter-nos à altura.

Teresa Salema

Prémio P.E.N. de Poesia para obras pulicadas em 2014

O Júri constituído por Victor Oliveira Mateus (Presidente), Casimiro de Brito e Paula Mendes Coelho decidiu, por unanimidade, atribuir ex-aequo, o Prémio PEN 2014 de Poesia às obras O Vidro, de Luis Quintais (Assírio & Alvim) e a O Tempo é Renda, de Isabel Mendes Ferreira (Labirinto de Letras).

Trata-se de duas obras, que não obstante as diferenças óbvias existentes entre elas, se apresentam com uma forte originalidade no panorama geral da poesia portuguesa contemporânea, privilegiando acima de tudo o fazer poético, o trabalho sobre a linguagem, sem os quais a poesia não existe.

Em ambos os casos se trata de leitores cultos, que ousam entender a escrita poética como um combate, como um “campo de batalha”.

Ainda que Quintais tenha confessado recentemente que O Vidro resultou sobretudo de um processo inconsciente, intuitivo, enigmático, e que esse foi o seu “Dia triunfal”, bem sabemos que tal como no caso de Pessoa, tudo se passa de maneira algo diferente. Muitos outros dias de angústia e trabalho árduo, de combate com a palavra estão provavelmente na origem deste texto, que constitui uma longa revisitação ao passado, ou antes uma curiosa “entrevista”, levada a cabo por um sujeito poético arquivista, coleccionador, anotador de fragmentos, tal como o trapeiro de Baudelaire, pretexto aqui para um diagnóstico lapidar dos tempos em que vivemos e que deixa o leitor sem fôlego, e sempre em alerta. A violência, a guerra, as metrópoles do asfalto e da solidão e um tempo fundamentalmente técnico que Baudelaire já tinha magistralmente intuído, de onde o afecto e o humano foram banidos, tudo isso surge numa forma condensada, intensa, dada a mestria com que sugere, mais do que diz, veiculando uma dimensão política, que nos apraz aqui sublinhar.

Apenas um exemplo da coerência e do apuramento da poética de Quintais. Se, em Depois da Música (editado em 2013), havia uma alusão bem explícita ao holocausto, por exemplo em poemas como “Noite e Nevoeiro”, aqui, nesta obra, surge apenas a alusão, a sugestão dessa atrocidade maior, agora fatalmente e sub-repticiamente incorporada e podendo pairar sobre o tempo presente, no que pode ser visto celaniamente como uma “escrita do não escrevível”:

“[…]De estilhaços/ é a voz de vidro e o céu deglutido, esventrado,//como a rede rota que faz precipitar a história/e engole a cidade em som e fúria e lamento//e regresso: o caminho invertido das chaminés/onde o fumo se transforma em corpos//e os corpos saem dos fornos/e começam a andar de novo na estranha terra//e dos campos saem depois serenamente.” (p. 21-22)

 Este longo poema “Vidro” vai ainda articular-se de maneira exímia com uma segunda parte intitulada “Ecolalia”, que tal como este título sugere, constitui um eco dos principais topoï da primeira, desta feita num conjunto de 21 pequenos textos em prosa poética, numa nova reconfiguração de experiências dolorosas presentes em filigrana na primeira parte.

De facto, se anteriormente a poesia de Quintais ainda conseguia riscar “a palavra DOR no quadro negro”, nesta última obra ela prova não ser capaz de apagar, de eliminar essa dor. A “imprecisa melancolia” (título da primeira obra de 1995) transformou-se em “negro sol”. Com efeito, o olhar melancólico e alegórico do poeta flâneur, do trapeiro baudelairiano é aqui levado às últimas consequências, restando-lhe apenas recompor os estilhaços que sabe desprovidos de significado, teimando em reconfigurá-los na esperança de algo novo, de algum consolo que todavia sabe não existir, muito menos quando o sujeito poético se imagina a responder a um filho:

“E ao teu filho?//Dir-lhe-ás que não há alma,/que um sopro suportando a coerente//carne sobre as suas espáduas/é maligno subterfúgio?”(pp.37-38)

II

Entre poesia e prosa, a escrita torrencial de Isabel Mendes Ferreira desafia a capacidade perceptiva do leitor, confunde deliberadamente a intelecção sempre tão ávida de linearidade e de um sentido a dar-se sem pejo nem véus, joga – através de um cultismo denso e de um sincretismo temático – com a propagada necessidade de univocidade e/ou de inteligibilidade imediata. A poeta retoma assim a ideia, tão cara à modernidade, de tecedura poética e, a partir daí, ensaia uma arquitectura singular e heterodoxa, pelo que não hesita em deitar mão a todo o tipo de recursos estilísticos: assonâncias e exercícios de paronímia (Cf. p 52: arrasta/ arrasa); repetição de palavras (Cf. p 170: fiz-me inóspito. fiz-me medo); expressões rondando o jargão (Cf. p. 110: fumo de fio a pavio), contrastando muitas vezes com um registo fortemente erudito…. Aliás, não é por acidente que o título desta obra refere a imagem da renda, e essa urdidura não é apenas formal, ela remete igualmente para um trabalho da memória, simultaneamente labiríntico e aracniano, onde os temas se aprofundam, se abandonam – muitas vezes abruptamente – e se retomam como um rendilhado feito no tempo e a partir do tempo. Renda e não rede, que envolve… sem aprisionar. O tempo é, portanto, o solo matricial desta poesia, assim como o aro que emoldura toda escrita poética: “e o tempo é uma variável que não dominamos. não dominaremos nunca. como se viajássemos numa pequena barca por mar/ encapelado. umas vezes somos salvos e outras/ engolidos pelas águas.” O tempo, ora na sua dimensão salvífica, ora como abismo destruidor, é o território onde a existência se abre – e neste ponto é impossível não nos recordarmos de algumas das principais teses de Heidegger! – como forma de “ser-para-a-morte”, provocando no sujeito poético momentos de alegria serena e – muitas vezes também – de uma angústia desintegradora: “O tempo é renda no ventre plano da saudade/ não espero nada. sou assim como a desintegração. evento/ cardume película e animal de infância “ (p. 107).

Ciente de que é da “casa dos afectos que a palavra chega”, trata-se nesta escrita de “cantar os signos”, num texto sempre aberto “profano e sagrado; profundo e raso”, e de “recolher os despojos. como quem desmente o texto e a voz num deserto que já foi corpo antigo e agitação de falcões inquietos.” (p.60)

 Relatores: Victor Oliveira Mateus, Paula Mendes Coelho

Prémio PEN Clube Português de Ensaio, referente a livros publicados em 2014

Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho, Porto Editora, 2014.

O júri do Prémio PEN Clube Português de Ensaio, composto por José Pedro Serra, Paula Cristina Costa e Ricardo Gil Soeiro, decidiu atribuir o prémio, por unanimidade, a Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho, livro publicado pela Porto Editora. Estamos perante uma obra que em muito excede o escopo do mero guia prático de escrita de ficção que se anuncia no subtítulo. Assumindo-se, embora, como uma vigorosa réplica à proliferação dos manuais de escrita criativa (e à decorrente simplificação do fenómeno literário e da experiência da criação ficcional que aqueles, não raras vezes, acarretam), a presente obra apresenta uma fértil re-leitura das matérias atinentes ao universo da escrita ficcional, revisitando, com agudeza e elegante erudição, alguns dos mais emblemáticos conceitos trabalhados no seio dos Estudos Literários. Com efeito, Mário de Carvalho demora-se numa prismática reflexão em torno do cânone e do repertório, da contemporaneidade ou do imperativo da originalidade, da depuração do gosto ou do pacto ficcional, nunca deixando de aliar, de um modo extremamente produtivo, a dimensão empírica da sua experiência de escrita a uma dimensão mais conceptual que nunca abandona. Na “Nota Prévia” é-nos confidenciado que “O autor não tenciona, nem de longe, nem de perto, atrever-se ao terreno da teorização narratológica e visa muito aquém dos estudos literários. Pretende tão-só, num itinerário vagamundo, desvendar uns poucos caminhos, anotar-lhes as curvas e contracurvas, prevenir dos salteadores e trapaceiros, e indicar algumas razoáveis estalagens” (p. 11). O tom que aqui se esboça constitui, efectivamente, fiel prelúdio para a abordagem adoptada pelo ensaísta ao longo das páginas em que se espraia a sua reflexão simultaneamente perscrutante e irónica. Reconhecemos, pois, nesta obra uma meditação despojada de grandiloquência, praticando aquilo a que chama dúvida sistemática, nisso se aproximando da sabedoria sem arrogância de um Montaigne. Mário de Carvalho brinda o seu leitor com um conjunto de intuições, apontamentos e advertências, sem nunca redundar na cristalização do registo prescritivo. Socorrendo-se embora de um alargado leque de referências de índole teórica-crítica (fruto de um profundo saber acumulado), o autor limita-se (o que não é tarefa menor) a traçar linhas de fuga, a sugerir pontos de vista, a delinear hipóteses de pensamento. Sendo que é justamente para esse multi-perspectivismo que o título da obra aponta, tal não se traduz numa fraqueza conceptual, antes concorre para a abertura da sua palavra plurívoca. Ensinando-nos, na esteira de Adorno, que “a verdade é constelação em devir”, o livro revela um notável carácter orgânico, plasmado numa estrutura de 6 capítulos que, por sua vez, se encontram subdividos em 59 pontos práticos. Texto de difícil classificação genológica, Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão põe em cena, numa prosa plena de rigor e de imaginação, um diálogo entre alteridades: a do leitor, a do autor e a das multíplices vozes que este convoca para compor o palimpsesto da sua memória literária. Reconhecemos nesta obra de Mário de Carvalho a generosidade da partilha de um segredo, “o segredo, o »abre-te, Sésamo« da criação literária”, como nos diz na página 275, “fazer com que as coisas sejam outras, como se sentidas pela primeira vez, únicas e especiais, tocadas de mistério e assombro, de riso ou reflexão.” É nesse sentido que o livro que agora temos o prazer de premiar se assume, afinal, como irradiação plural de sentido, auscultação vibrátil sobre a literatura, interrogação que procura desarmar; em suma – ensaio genuíno.

Os membros do Júri de Ensaio: Ricardo Gil Soeiro, José Pedro Serra, Paula Cristina Costa

 

Hotel (Tinta da China, 2014), de Paulo Varela Gomes, Prémio Narrativa do P.E.N. Clube Português

De entre as obras a concurso, publicadas no decorrer do ano de 2014, o júri do Prémio do P.E.N Clube Português de Narrativa (Rita Taborda Duarte, Paula Morão e Francisco Belard) decidiu, unanimemente, distinguir a obra Hotel, de Paulo Varela Gomes, a segunda incursão do autor no domínio da ficção narrativa, depois do seu romance de estreia, O Verão de 2012, editado também pela editora Tinta da China.

   Hotel salienta-se por ser uma obra munida de uma escrupulosa organização narrativa e estilística,  como se de um rigoroso projecto arquitectónico se tratasse; toda uma estrutura compositiva sustenta o livro,  expondo-o em dois planos distintos que se intersectam: um que explora,  literalmente,   a disposição do espaço físico em que  história se move ─ o cenário do hotel,  antigo palacete do início do século XX,  sui generis,  mesmo enigmático,  enquanto edifício e particular projecto de arquitectura;  e outro,  sempre a par do primeiro,  nele enraizando, afinal, e que dá conta das várias circunstâncias e condições do voyeurismo,  fazendo sobressair,  no livro,  uma tensa ambiguidade entre o acto de ver e a capacidade de mostrar, num permanente conflito entre o que se expõe ao olhar,  e o que se mantém oculto.

Envolvendo toda a narrativa numa extensa, mas subtil, reflexão teórica, conferindo-lhe o enigmatismo que o hotel, o espaço físico em que a narrativa se situa, por si só sugere, é de relevar que o próprio enredo e a composição estilística do romance simulam esta mesma ambivalência,  exibindo, em parte,  a própria construção ficcional. O narrador vai desvelando as suas estratégias narrativas, não ocultando as fundações e os alicerces que sustentam o texto. Aliás,  este procedimento que desvenda a composição estrutural  do romance é bem evidente na nomeação explícita de alguns capítulos do livro, a saber «o hotel,  continuação», «e agora o fim aproxima-se»  ou  «O fim da história», fazendo sobressair próprio processo do livro, escrevendo-se, in fieri.

Não é simples (nem importante, porque isso faz parte da própria edificação arquitectónica do romance)  identificar  distintamente o cerne temático do livro. Por um lado, é relatada a história de Joaquim Heliodoro, estranha personagem de um excessivo tradicionalismo, de débil compleição física, e que compra um palacete (também ele com um recorte espacial muito peculiar),  para nele edificar um hotel nada convencional;  por outro lado,  essa mesma narrativa primária sobressai, essencialmente, como uma admirável oportunidade para  revisitar os modos de edificação e percepção do espaço físico e seus labirintos ocultos. E é,  então,  a questão do olhar, daquilo que está ou não na  «periferia da visão» (citando um outro capítulo do volume) que confere uma rara unidade a Hotel, de Paulo Varela Gomes.  Da pornografia,  ao voyeurismo,  à escopofilia,  passando pela arquitectura,   evidencia-se, na obra, por vezes, também uma subtil necessidade da percepção da literatura, mesmo da poesia, no fundo da cultura, como suporte estrutural, fundacional, da própria vida.  Encerrado neste hotel,  que oculta, afinal, o mistério da sua construção arquitectónica,   o livro,  em simultâneo, também é o reflexo de um enigma oculto nas facetas da sua personagem central, Heliodoro,  extensível, também,  às outras figuras que em seu torno gravitam. O resultado é um invulgar jogo especular entre narrativa e narração, jogo  por vezes labiríntico,  dir-se-ia mesmo quase escheriano, pela exímia metamorfose do espaço fechado em infinito, ou mesmo pela surpreendente transformação de um espaço físico em espaço psíquico. Todos estes aspectos que convidam a uma densa reflexão literária conferem a Hotel um carácter único, original, que, no entender do júri do PEN Clube, obriga a um lugar de destaque na Literatura Portuguesa.

O júri: Rita Taborda Duarte, Paula Morão, Francisco Belard

Primeira Obra – Ex-aequo:

Susana João Carvalho, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Texto editora-Leya, 2014.

É com grande satisfação que o júri do Prémio Primeira Obra do Pen Clube Português, coordenado pelos presidentes dos júris que tiveram em conta as recomendações de todos os seus membros, decidiu atribuir este Prémio a duas obras em ex aequo, e por unanimidade, a saber, ao romance de Gabriela Ruivo Trindade, Uma Outra Voz, da editora Leya, e à obra de Susana João Carvalho, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, da Texto editora-Leya. O júri decidiu que ambas as obras reuniam as condições essenciais para a atribuição do prémio, evidenciando ímpar qualidade de escrita e um fulgor de pensamento que as tornam inequívocos exemplos de excelência literária. A obra de Susana João Carvalho resulta de uma dissertação de Mestrado, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo vindo a lume como o 5º Volume da Colecção António Lobo Antunes/Ensaio, sob a coordenação de Maria Alzira Seixo. O presente volume propõe-se examinar os efeitos visuais na obra de António Lobo Antunes. Com feito, é o topos do olhar que concita o labor da ensaísta, uma linha de reflexão que, no âmbito dos estudos antunianos, tem sido menosprezada em favor do amplamente escrutinado motivo da polifonia. Estruturada em cinco capítulos, todos eles subordinados ao ponto cêntrico da temática visual nos romances antunianos, a presente obra é particularmente convincente na demonstração que faz da necessidade de se compulsar criticamente a dimensão visual da escrita antuniana. Para o efeito, Susana João Carvalho centra-se no denominado “ciclo das epopeias” (constituida pelas obras Explicação aos Pássaros, 1981; Fado Alexandrino, 1983; Auto dos Danados,1985; e As Naus, 1988), embora a análise seja enriquecida pela convocação de peças cronísticas, como “O coração do coração” ou “Receita para me lerem”. A diversidade de referências de que se vai socorrendo e a amplitude das fontes conceptuais a que faz apelo não ferem a coerência do edifício argumentativo, antes concorrendo para a consolidação do seu desiderato fundamental – a inquirição em torno dos processos de representação que sustentam a dimensão da visualidade da ficção antuniana, convocando diálogo com diferentes artes visuais como a fotografia, o cinema ou a pintura. Ao capítulo propedêutico em torno do ver sucede a “fisionomia das imagens”, compulsando-se os contornos fotográficos, especulares e fílmicos, abrindo-se posteriormente a leitura sob o signo do naufrágio. Os dois capítulos finais sublinham o carácter pictórico da composição antuniana, conduzindo-nos da luz da épica às sombras do trágico e às imagens-espectáculo que, projectando uma imagística grotesca, agudizam o pendor trágico desta escrita. Como argumenta prescientemente Susana João Carvalho: “O próprio modo de narrar antuniano, com a fragmentação do discursivo narrativo, a confluência de várias vozes e de diferentes correntes de consciência, a torrente imagética de uma escrita através da qual irrompe “a força pulsional da vida e dos afectos na desordem delirante das palavras” consegue sugerir esse indizível caos que é o naufrágio e impor a deriva ao próprio leitor, assim lançado numa difícil travessia de sentido” (p. 89).

Os membros do Júri dos Prémios PEN-2015

Uma Outra Voz (Leya,2014,) de Gabriela Ruivo Trindade

 O júri do PEN Clube Português decidiu, por unanimidade, propor Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, para a distinção «Primeira Obra», destacando a singularidade com que a intriga do romance se estrutura, ao conduzir o leitor por um périplo, que atravessa todo o século vinte em Portugal. Quadros da mais recente História Portuguesa, desde a Primeira República, passando pelo fascismo e a guerra colonial, e depois pela liberdade democrática, são revisitados na obra, a partir da figura do benemérito republicano de Estremoz, Mariano Serrão. Na esteira de uma tradição narrativa não sequencial, que assume, para um mesmo tema, múltiplos narradores e, consequentemente, diversos prismas, o leitor acede a cinco diferentes vozes com perspectivas necessariamente díspares acerca do mundo, a um tempo real e ficcional, que, em seu torno, se vai urdindo.

Será de salientar, como carácter distintivo de Uma Outra Voz, a agilidade com que se concebe e organiza narrativamente as diversas focalizações ou pontos de vista. Assim, a obra depressa se torna uma teia polifónica, exibindo cenas descontinuadas, que apresentam, no entanto, pontos de relação entre si; e é por meio desta estrutura formal ─ base constitutiva do romance ─ que as personagens são evocadas, explorando posicionamentos diferentes sobre os mesmos contextos ou situações, abrindo caminho a narrativas secundárias, que tornam o livro um mosaico de pequenos acontecimentos e de figuras, que ficcionalmente cruzam cenários reconhecíveis, referencialmente identificáveis, do próprio país.

Unindo estas vozes ─ cinco falas soltas ─ e adensando-as, em simultâneo, é de evidenciar, como móbil de reorganização dos diversos planos em que a narrativa se estrutura, a exibição, no final do livro, do diário escrito pelo punho do próprio protagonista, aquando da sua estadia em Angola. Esta estratégia formal que sustenta o texto acaba por atribuir uma assinalável consistência às diferentes personagens, que se fazem ouvir ao longo da obra, contribuindo para uma interpretação ironicamente reflexiva do próprio título Uma Outra Voz. Ao recusar a previsibilidade de uma sequência linear, todo o romance adquire uma espessura que é distintivamente acentuada pela permanente indefinição entre o carácter histórico do livro e a sua ficcionalização. E a corroborar esta percepção de que a história enraíza numa forte consciência estrutural, enquanto discurso, será também de recordar os dois momentos paratextuais ( peritextuais, segundo a definição de Genette) que balizam a obra: por um lado, logo no início, uma árvore genealógica que orienta o leitor pelos anos (quase um século) que o romance percorre, e por outro, no final, as fotografias de época, reais, assim como o texto, também real, concreto, do elogio fúnebre de João Francisco Carreço Simões (familiar da autora), figura central em torno de quem gravitam as várias perspectivas que enformam o livro.

Estes enfoques múltiplos em permanente correlação emprestam, consequentemente, ao romance de Gabriela Ruivo Trindade uma notória espessura que cartografa a História mais recente de Portugal, conjugando o mundo particular, individual, regionalista, até, de uma família, com a vida social, colectiva, nacional de um país. Esta riqueza de contrastes que se complementam na bem urdida estrutura polifónica do romance transforma Gabriela Ruivo Trindade num valor a literário a seguir com atenção no mais recente panorama editorial português, que o júri não pôde deixar de salientar.

Os membros do Júri dos Prémios PEN-2015

 

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