“Mare Nostrum: Sabers e Lums: Un singular plurial”. Sobre o 4º Encontro Euro-mediterrânico do PEN em Narbonne, de 25 a 28 de Junho de 2015

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Como nos contou Miquèla Stenta, a tradição occitana criou um conceito de “Cortesia”, patente desde os tempos da poesia trovadoresca e que inclui “larguesa” (valor do dom), “prètz” (mérito de sentimentos elevados e de comportamento requintado), “convivência” (arte de viver juntos), “sen e saber” (sensibilidade e conhecimento), “fin d’amor” (conhecimento através do amor humano) e “paratge” (nobreza de coração, espírito e alma). Mas não serão os valores do diálogo e da paz, quando generalizados? Perguntou um dos cerca de trinta participantes do Encontro organizado pelo centro PEN Occitano.

Fizemos parte de quatro mesas-redondas sobre as liberdades de consciência e de expressão, bem como as problemáticas dos refugiados e das mulheres, na História e na actualidade. Nas quentes noites mediterrânicas, poetas de hoje e de sempre foram declamados e cantados; a voz de Eric Fraj fez ressoar, na bela língua occitana, poemas de García Lorca; Edmond Charlot, editor de Camus, foi relembrado e homenageado; em Minerve, cidade cátara, foi celebrado o centenário de nascimento do poeta local Léon Cordas. No domingo 28, peregrinou-se a lugares de memória como o antigo campo de internamento de Rivesaltes (que data do tempo da Guerra Civil de Espanha e da Segunda Guerra Mundial), o túmulo de Antonio Machado em Collioure, terra onde faleceu depois de atravessar a fronteira francesa e o memorial de Dani Karavan erigido em Port Bou, no lado espanhol da fronteira, nos cinquenta anos do suicídio de Walter Benjamin, sob a ameaça de retorno à França ocupada pela Guardia Civil.

Só a leveza do convívio entre amigos pode contrabalançar o peso das memórias, sem as quais não saberíamos viver nem criar. Este encontro teceu mais um elo na sequência dos encontros de Arles (2008), Haifa (2010) e Lisboa (2013): malhas para a rede euro-mediterrânica que foi surpreendida pela violência de ataques islamistas em plena realização dos trabalhos. Também por isso, a cooperação no processo de redacção de dois textos, um sobre a necessidade de assumir a responsabilidade pelo acolhimento dos refugiados (coordenado por Sylvestre Clancier) e outro sobre a necessidade de proteger e cultivar a língua e cultura occitanas na respectiva região, em plano de igualdade com a francesa (coordenado por Jean-Frédéric Brun).

E não se esqueceu nem a palavra de Titos Patrikios nem a Grécia que a eurocracia pretende vergar, nas leituras onde todos nos ouvimos nas respectivas línguas e em tradução francesa e/ ou occitana.  Os deuses já se retiraram há muito, constatava Hörderlin que procurava os seres humanos e dizia não os encontrar entre os alemães. O Deus monoteísta da fábula de Bluma Finkelstein chora ao ver que os militares do mundo não deixam passar os seus povos.

Mais, muitos mais encontros como este precisam-se. Fáceis de realizar (com muito trabalho por detrás, sempre) desde que os participantes aceitem soluções simples: habitar num albergue de juventude e comer na respectiva cantina. Práticas e ambientes que favorecem a constante demanda da palavra convivial. Aqui seja tecido um expresso louvor aos múltiplos talentos de Miquel Decor (vice-presidente do PEN occitano e que também participou no encontro de Lisboa em 2013), alma logística e comunicacional desses luminosos e saborosos dias. (T.S.)

Imagens: Bluma Finkelstein e Jean-Fréderic Brun (presidente do Centro PEN occitano), numa das mesas-redondas ; memorial de Dani Karavan a Walter Benjamin, em Port-Bou.

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Relatório da Conferência de WIPC (Amsterdão, de 26 a 29 de Maio de 2015)

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CONFERÊNCIA BIENAL DO COMITÉ DOS ESCRITORES NA PRISÃO DO PEN INTERNACIONAL

CREATIVE RESISTANCE

STORIES FROM THE EDGE OF FREEDOM

AMESTERDÃO, 26-19 DE MAIO DE 2015

RELATÓRIO

 

A 11.ª Conferência Bienal do Comité dos Escritores na Prisão (WiPC) do PEN Internacional teve lugar em Amesterdão (Holanda) entre os dias 26 e 29 de Maio, em paralelo com a Conferência da Rede Internacional das Cidades de Refúgio (ICORN). A conferência contou com a participação de representantes de cerca de 50 centros PEN, tendo também estado presentes o Presidente do PEN Internacional John Ralston Saul e mais cinco membros da direcção, entre os quais Teresa Salema, presidente do PEN Português.

A reunião tinha como objectos fundamentais fazer o balanço do trabalho desenvolvido desde a Conferência de Cracóvia, realizada em Maio de 2013, e com base nesse balanço perspectivar a actividade futura do Comité para os próximos dois anos.

No dia 26, terça, ao fim da tarde, teve lugar a cerimónia oficial de abertura da Conferência, na presença do Presidente da Câmara de Amesterdão, que usou da palavra para dar as boas vindas aos conferencistas, mostrando-se solidário com as causas do PEN, em particular a defesa da liberdade de expressão. A seguir intervieram a Presidente do WiPC, Marian Botsford Fraser, o Presidente do PEN Internacional, John Ralston Saul, o Presidente do ICORN, Peter Ripken e a Presidente do PEN Holandês, Manon Uphoff.

No dia 27 de manhã os trabalhos tiveram início com uma sessão plenária do Comité. A cadeira vazia, uma tradição deste Comité do PEN, coube à escritora e bloguista chinesa Gao Yo, a cumprir uma pena de prisão efectiva de 10 anos na República Popular da China.

Boa parte da reunião foi ocupada com a apresentação do relatório da actividade desenvolvida pelo Comité no biénio 2013-2015 feita pela directora executiva, Ann Harrison, um relatório muito detalhado, descrevendo as inúmeras acções levadas a cabo em inúmeras regiões do planeta onde há constantes violações da liberdade de expressão e atentados contra a integrada de física de jornalistas e bloguers: América Latina (México, Guatemala, Honduras), Coreia do Norte, Myanmar, Ásia (Tailândia, Bangladesh, China, Índia), Europa (Turquia, Quirguistão, Cazaquistão, Macedónia, França – Charlie Hebdo), África (Etiópia, Eritreia, Nigéria, Malawi, Burkina Faso) e Médio Oriente (Síria, Iraque, Egipto, Irão).

O tipo de acção desenvolvida vai desde a RAN (Rapid Action Network), ao Call for Action, passando por Press releases, apoios ao ICORN relativos a escritores em risco, e apoio em situações de asilo político. O relatório continha ainda diversos gráficos que permitiam comparar as acções desenvolvidas ao longo dos últimos anos em quantidade e qualidade.

Foram ainda apresentados os casos de dois novos centros PEN – Honduras e Myanmar – países onde tem havido violações sistemáticas do direito à liberdade de expressão, após o que se deu início a breves apresentações da actividade desenvolvida por cada um dos centros presentes.

Da parte da tarde teve lugar uma intervenção gravada do Representante Especial da ONU para a liberdade de expressão, David Kaye, o qual revelou que nos últimos anos foram mortos cerca de 700 jornalistas em todo o mundo, dando vários exemplos concretos de jornalista perseguidos.

 Interveio em seguida uma jornalista marroquina que fazia parte da redacção do Charlie Hebdo e que só escapou ao atentado por se encontrar de férias, mas que desde então tem vindo a ser constantemente ameaçada, estando a viver sob protecção policial permanente. Ela, sendo muçulmana, defendeu que o direito a não ser ofendido, reivindicado por muitos muçulmanos a propósito das caricaturas de Maomé, não existe.

Seguiram-se sessões paralelas conjuntas com o ICORN, entre as quais foi exibido um impressionante documentário da autoria de um ex-jornalista iraniano sobre a campanha do candidato presidencial da oposição Mussavi contra o então presidente Ahmadinejad durante as penúltimas eleições, a qual acabou com uma gigantesca fraude eleitoral que deu a vitória a este último, frustrando as expectativas da maioria da população, que apoiava a mudança prometida pelo primeiro.

Na quinta-feira, dia 28, de manhã continuaram as sessões paralelas sob temas muito diversos, desde a questão da descriminalização da difamação em África às perseguições de jornalistas no Médio Oriente, mas também sobre o crescimento da legislação anti-LGBT em certos países e a actuação de diversas organizações dos países ocidentais no apoio aos escritores e jornalistas refugiados.

Da parte da tarde teve lugar a segunda sessão plenária do Comité, na qual se prosseguiu a apresentação das actividades dos centros e se fez um debate alargado sobre a ideia de encontrar um tema central de campanha para o trabalho do Comité nos próximos três anos, eventualmente a alargar aos restantes comités. Foram avançadas várias hipóteses com base num inquérito feito a todos os centros antes da conferência.

Na sexta de manhã, 29, houve nova e última sessão plenária do Comité durante a qual foi apresentada e aprovada uma proposta do PEN Dinamarquês para a criação de um grupo de trabalho que reflicta sobre as relações entre a presidência do WiPC e o secretariado, os centros nacionais, a direcção do PEN Internacional e os outros comités no sentido de e melhorar e reforçar o seu funcionamento. O resultado desse trabalho deverá ser apresentado no próximo Congresso a realizar em Outubro, no Québec. Nesta sessão conclui-se a apresentação das actividades dos centros presentes. O representante do Centro Português deu conhecimento de que estão agora criadas as condições internas para uma melhor resposta às solicitações do WiPC (RAN, Call for action, etc.) e que é nossa intenção procurar, na medida do possível, acompanhar mais de perto a situação nos PALOPS, em particular naqueles em que existem problemas de liberdade de expressão. Neste sentido Teresa Salema referiu o acompanhamento que tem vindo a ser feito pelo PEN Clube Português do caso Rafael Marques, também objecto da atenção do WiPC, e mostrou a sua preocupação face aos seus recentes desenvolvimentos. Informou ainda que o livro Diamantes de Sangue se encontra agora disponível no site da Editora Tinta da China em português e em inglês.

Ficou ainda decidido que o Secretariado do Comité apresentará em breve ideias em relação a um eventual tema comum de campanha para os próximos três anos, a aprovar também no Congresso.

Por fim, antes do encerramento dos trabalhos, houve lugar a uma homenagem de despedida à actual Presidente do Comité Marian Botsford Fraser, cujo mandato terminará em Outubro, com a eleição de um/a novo/a presidente no Congresso.

De referir ainda que, em paralelo com as sessões da conferência, sobretudo à noite, realizaram-se vários espectáculos e sessões de leitura de textos e poemas, muito ligados à problemática em debate, tendo como protagonistas vários dos escritores e poetas refugiados em países europeus, nomeadamente a Noruega, Suécia, Dinamarca e Holanda, oriundos de países do Médio Oriente em guerra, como a Síria e o Iraque.

No final de uma reunião como esta é forçoso constatar-se que o PEN é hoje cada vez menos uma organização de escritores no sentido tradicional do termo e muito mais uma organização de jornalistas e bloguistas, ou seja, daqueles que, nos países onde há problemas sérios de liberdade de expressão, estão na primeira linha de combate e portanto mais sujeitos a todo o género de perseguição e de repressão. E é portanto sobre eles e as suas dificuldades para exercerem a sua actividade que prioritariamente aqui se fala e se trabalha.

Os mais puristas poderão perguntar-se se isto não é de certo modo uma subversão do espírito inicial do PEN Internacional, que sempre pugnou pela liberdade de expressão, é certo, mas também sempre se bateu pela promoção da literatura enquanto arte e expressão cultural e não apenas como veículo para alertar consciências, como às vezes aqui tende a acontecer. É um ponto de vista perfeitamente defensável, mas aí é forçoso também reconhecer-se que um PEN Internacional predominante ou exclusivamente voltado para a promoção da literatura talvez já não tivesse grande razão para existir nos dias de hoje.

Lisboa, 13 de Junho de 2015

Manuel de Queiroz

47º Encontro do Comité de Escritores para a Paz em Bled (Eslovénia), de 6 a 10 de Maio de 2015

Teve lugar em Bled (Eslovénia) o 47º Encontro do Comité de Escritores para a Paz, com a participação de 54 escritores de 54 escritores de 27 Centros, bem como do Presidente, do Secretário e de dois membros directivos do PEN Internacional, respectivamente John Ralston Saul, Hori Takeaki, Antonio della Rocca e Teresa Salema. As duas mesas-redondas decorreram em torno dos temas “O escritor numa sociedade reduzida à sua esfera pública?” e “Guerras visíveis e invisíveis”. Para além de sessões literárias com o lançamento da versão eslovena do romance de John Ralston Saul Dark Diversions e leituras de textos, em conversa com o público, em diferentes localidades eslovenas, foram entregue os prémios “Rostos da paz” a dois jovens em idade escolar premiados pelos seus textos e realizou-se a Assembleia Geral do Comité. O PEN Clube Português esteve representado por Teresa Salema, que ocupa ainda o cargo de Vice-presidente do respectivo Comité.  Mais detalhes poderão ser lidos na versão longa do relatório, em língua inglesa, no blog “A Permanent Whisper as a Cry for Peace” (aqui à direita).

Imagem: Edvard Kovac (anterior presidente do Comité de Escritores para a Paz), Sylvestre Clancier, Jean-Luc Despax, Zoran Anchevski, Teresa Salema, tendo ao fundo uma igreja russa em madeira reconstruída em memória dos prisioneiros da guerra de 1914-18.

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Eleições no PEN em 4.5.2015

Foi eleita a Lista A dos Órgãos Associativos do PEN (lista única) para o triénio 2015-2017. É composta pelos seguintes membros:

Direcção – Teresa Salema (Presidente), Maria João Cantinho (Secretária), Victor Oliveira Mateus (Tesoureiro), António Carlos Cortez e Rita Taborda Duarte (Vogais); José Viale Moutinho e Ricardo Gil Soeiro (Suplentes).

Mesa da Assembleia Geral – Paula Morão (Presidente), Francisco Belard (1º Secretário), Paula Mendes Coelho (2ª Secretária),

Conselho Fiscal – José Manuel Vasconcelos (Presidente), António Graça de Abreu, Manuel de Queiroz (Vogais); Isabel Cristina Pinto Mateus, João David Pinto Correia (Suplentes).

A lista teve como Delegado Mário de Carvalho e os seguintes sócios apoiantes: Ana Luísa Amaral, Cristina Carvalho, Ernesto Rodrigues, Fernando J.B. Martinho, Gastão Cruz, Hélia Correia, Inês Lourenço, Isabel Allegro de Magalhães, Jaime Rocha, João Barrento, José Pedro Serra, José Tolentino de Mendonça, Lídia Jorge, Luís Filipe Castro Mendes, Manuel Gusmão, Maria Velho da Costa, Nuno Crespo, Ricardo Marques, Rosa Maria Martelo, Teolinda Gersão, Teresa Martins Marques, Vítor Viçoso.

A todos o nosso agradecimento e o nosso desafio: façamos uma equipa alargada para desenvolver iniciativas com base na Carta e nos valores do PEN.

 

A voz das línguas, o ruído dos livros, a música das traduções: Notas sobre o encontro do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos, em Barcelona, de 21 a 23 de Abril de 2015

   Na sua conferência de abertura, o escritor ucraniano Andrey Kurkov (que vive entre Kiev e Londres) falou de uma língua extinta no longínquo Daguestão. Dela não restam vestígios, uma vez que desapareceram as três últimas pessoas que ele e a mulher tinham ainda podido conhecer. Quantas línguas vêem a sua vida ameaçada, à semelhança de escritores e jornalistas? Não seria de criar uma linha de alerta para as línguas em risco, bem como uma rede de acção rápida para que os membros do PEN possam, de todo o mundo, apelar aos governos para que não permitam (ou não fomentem) situações de precariedade? Neste contexto, a presidente do Comité, Simona Ṥkrabec, sublinhou a conveniência de intensificar uma rede permanente de comunicação entre os Centros PEN que se ocupam de questões ligadas à(s) língua(s).

   Durante dois dias, debateram-se as problemáticas 1. Da palavra escrita e oralidade e 2. Da literatura e comercialização. Na primeira mesa-redonda, Marjan Strojan (PEN esloveno) falou da literatura Sinti, de comunidades ciganas que habitam o espaço do país desde o século XI e gozam actualmente de um estatuto de protecção, desde a tradução de textos a emissões de rádio. David Pearson (SIL – Summer Institut of Languages) expôs a diferença entre várias formas de sustentabilidade na língua, da mais ampla à mais restrita e tendo a ver com a literacia, a oralidade, a identidade e a história. Mais ameaçados nos continentes extra-europeus, os dois últimos aspectos indicam a fragilidade das línguas puramente orais, ou que não podem – ou simplesmente deixam de – assentar na estabilidade da escrita. Petra Elser (PEN basco) mostrou exemplos da vitalidade da poesia basca, enquanto bertso cantado em sessões de jantar e convívio e assim dando um fôlego renovado a uma língua cujo primeiro testemunho escrito data do século XVI.

Na segunda mesa-redonda, Bei Ling Hang (PEN Chinês Independente), que vive em Taiwan e publica no estrangeiro, recordou a repressão exercida pelo governo da RPC sobre minorias como a tibetana e a uyghur, bem como as respectivas línguas. José Muratti (PEN de Porto Rico) lamentou a comercialização de sucessos editoriais fáceis, antes de ser exortado a relatar sobre o que o seu Centro tinha feito em prol da escrita e da literatura, o que se revelou um notável trabalho de colaboração com livrarias, escolas e instituições para promover a escrita entre os jovens e a divulgação do livro.  Este tem de continuar a fazer ruído, para que se possa promover a leitura.

Atravessando a sombra das ameaças globalizantes e dos best-sellers, fica-se com a impressão de uma generalizada prática de saudável coexistência entre o livro em papel e o formato digital. O problema não passa por aí. Tal situação foi confirmada no diálogo, travado durante a recepção no majestoso Saló del Consell de Cent del Ayuntamiento de Barcelona, entre o escritor irlandês John Banville e o seu entrevistador. Sinal dos tempos? Esperava-se uma conferência, pouco ficou de uma conversa. Depois da sessão e em torno de tapas e cervejas, discorreu-se sobre os factores que permitem às línguas sobreviver, dentro dos seus sistemas e famílias, cultivadas por uma prática atenta e correctora de desvios.

No segundo dia, as delegadas dos Centros suíço romano, norueguês, português e sul-africano sublinharam aspectos nevrálgicos das respectivas línguas, com especial relevo para os danos causados pelo “Acordo Ortográfico de 1990” (tendo sido distribuída uma versão inglesa da resolução aprovada na Assembleia Geral de 25 de Março) e para as línguas suómi (falada na Finlândia, mas também na Noruega e na Rússia) ou as línguas autóctones da África do Sul, em parte preteridas pelas comunidades indígenas devido ao predomínio do inglês.

O papel dos tradutores literários e a necessidade de uma dignificação de uma tarefa de recriação que amplia o alcance do texto original pautou a discussão em torno da proposta de uma Declaração a aprovar definitivamente no próximo mês de Outubro, na Assembleia geral de Québec. Ficam no ar questões em torno da “profundidade da margem estreita” (V. texto abaixo) de que os tradutores e as tradutoras dispõem, num papel que exige empenho (discutiu-se se seria paixão) e rigor, mas que constitui em todo o caso uma forma de co-autoria. Não se pode prescindir dos tradutores, pois como escreve o poeta catalão Joan Vinyoli: “”Sempre hi há algu qui nos es possible/que presindim./Potser grácies a aixó vivim encara”.

O dia 23 de Abril é o dia de St. Jordi, padroeiro da cidade e também o Dia Mundial do Livro. Pelas Ramblas livres de carros, os livros emparelhavam com rosas num convite à saída ao sol, à festa da letra, à música da palavra, original e traduzida.

Fotos: Momento do trabalho na Declaração de Quebec sobre tradutores e tradução; Teresa Salema (PEN Clube Português), Louis Jolicoeur (PEN Canadá), Adre Marshall (PEN da África do Sul); festa de St. Jordi – do livro e das rosas – em alegre ruído nas Ramblas.

23.4.2015 TS

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Carta Aberta do PEN Clube Português ao Presidente da República Portuguesa, aos membros do Governo e da Assembleia da República, aos órgãos de comunicação social e à população em geral, respeitante à língua portuguesa

A língua portuguesa é o nosso património comum com o qual convivemos e que utilizamos no domínio público e privado, oralmente e por escrito. Bastaria esta razão para fazer dela algo mais do que um património imaterial, que nunca deveria poder ser intervencionado sem uma ampla consulta pública e o apoio de pareceres qualificados. Ora sabemos que tal consulta pública nunca existiu e que em 2008, aquando da votação do chamado “2º Protocolo Modificativo” que permitia a imposição do “Acordo Ortográfico de 1990) ” (AO 1990), foram ignorados tanto uma petição com mais de 100000 assinaturas como opiniões e pareceres de qualificados especialistas, tendo sido tomado em conta apenas o parecer de um dos autores do AO 1990. Três anos após essa forçada “implementação”, os resultados estão à vista e decorrem não só da precipitação da mesma como da contradição básica entre as facultatividades previstas pelo texto do AO 1990 e a acção redutora do programa Lince, elaborado por uma instância (ILTEC) sem legitimidade para tal.

O PEN Clube Português segue com profunda apreensão tal processo que se traduz numa crescente iliteracia e num ostensivo caos linguístico, que chegou até às escolas e aos órgãos administrativos, e fornece diariamente exemplos que seriam ridículos se não fossem tristes sinais de insensibilidade e ignorância face a um património que é de todos. Logo nos primeiros dias após o início da forçada “implementação”, o PEN organizou uma sessão sobre o “Mal-estar com o Acordo Ortográfico” (9.1.2012) e desde então não deixou de apresentar, nas Assembleias do PEN Nacional e Internacional, propostas construtivas visando a suspensão de uma situação crescentemente insustentável até à conclusão de um amplo e sério debate que tenha em conta a experiência entretanto verificada.

O PEN Clube Português apela ao bom senso político dos agentes decisores no sentido de, no mínimo, não impor um grafolecto deficientemente elaborado e aniquilador das raízes etimológicas. Sublinhamos, dento do espírito de diálogo aberto e crítico que sempre cultivámos, a conveniência da sua suspensão enquanto se debatem medidas de fundo para colmatar o caos resultante da aplicação arbitrária de um instrumento comprovadamente ineficaz para alcançar os propósitos estabelecidos. Estes são por natureza incongruentes e absurdos: nem uma língua se pode “unificar” nas suas variantes (como o comprovam o inglês, francês e espanhol) nem uma escrita se pode “simplificar” fazendo cada indivíduo recorrer à instabilidade da sua pronúncia própria.

 

Lisboa, 25 de Março de 2015

Os sócios do PEN Clube Português, reunidos na Assembleia Geral ordinária

 

Todas as vozes vão dar a Praga: os 90 anos do Centro PEN Checo (13./14.2.2015)

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Para quem vem de Lisboa, ainda é Inverno em Praga. Contudo, o frio é calmo e não há neve nem gelo: depressa a cidade se torna acolhedora e calorosa, a partir do quinto andar do edifício da Biblioteca Nacional, onde está instalado o Centro PEN Checo. Os dois últimos lances de escadas têm de ser transpostos a pé e a simpatia dos colegas checos não deixa de fazer efeito. Da Biblioteca Nacional à residência do Presidente da Câmara distam poucos metros, correspondentes ao cruzar de uma praça. E é aqui que, no salão nobre, foi entregue o prémio PEN para 2015 ao artista plástico, poeta e editor Josef Vinklát.

   Com a presença de representantes de cerca de vinte Centros convidados (do Centro eslovaco, que até à separação dos dois países perfazia um único Centro com o aniversariante, ao Centro coreano, o mais longínquo), a celebração dos 90 anos de existência foi confessadamente um motivo de júbilo e de reflexão. Notando que a grande maioria dos Centros em países do Leste europeu nasceu nos anos 20, assim como o PEN Internacional, não é possível esquecer os anos ambíguos do regime “sovietizante”: se por um lado muitos escritores críticos de países como a Hungria, a Bulgária, a Jugoslávia (hoje desmembrada numa pluralidade de países e correspondentemente de Centros) se viam obrigados a emigrar, ou a escrever em condições precárias e sitiadas, por outro lado para os mesmos regimes a manutenção de um Centro PEN conferia uma aparência de baluarte antifascista e anti-imperialista. Assim, muitos desses Centros terão ocasião de festejar em breve o respectivo 90º aniversário, num ambiente similar de festa e reflexão.

   Embora o nosso Centro ainda só tenha cumprido 36 anos, porém a sua arqueologia mostra-nos que desde 1926 foram assinaladas tentativas para criar um PEN em Portugal e nos anos 40, aproveitando a relativa liberalização do regime no pós-guerra, tal Centro chegou a vias de facto e, no jantar de 21.1.1947, o então Secretário Alves Redol proferiu um discurso cujo manuscrito se encontra na posse do seu filho, António Redol. Dele citamos uma passagem: “.. o exercício intelectual, quando visa o serviço de todos ou o bem publico, envolve muito mais deveres que direitos. […] Poderemos, portanto, constituir, se o quisermos, pela variedade e pela força dos nossos recursos, o mais alto corpo de literatura viva de Portugal.”

   Numa cidade como Praga, todos os caminhos fazem-se a pé ou de transportes públicos e todos os convívios se processam em cafés ou pubs de paredes escuras, propiciadores da troca de memórias. A qualquer hora do dia e da noite, os ângulos das ruas acolhem a imaginação de pequenas histórias; o reflexo das águas do rio retém, em movimento, os perfis dos monumentos e das pontes.

   Um momento particularmente emocionante foi a visita à casa de Karel Čapek (1890-1938), uma vivenda com jardim construída na periferia da cidade pelo irmão Josef. O fundador do Centro PEN checo, autor de romances, peças de teatro, ensaios e crónicas de viagem, e quiçá mais conhecido por ter forjado o termo robot na peça R.U.R. (Rossum’s Universal Robots) de 1920, ali viveu e conviveu. A casa, adquirida pela administração do bairro e cujo recheio está a ser inventariado para se tornar numa casa-museu, tem a aura trágica de tudo o que se dissolve depois de uma época. No seu último andar, de certo modo como um canto de resistência, vemos ainda a sala de reuniões onde se juntavam grupos de discussão à sexta-feira. A eles pertenceu também o grande amigo do autor e primeiro presidente da República da Checoslováquia, Tomas G. Masaryk, sobre o qual Čapek também escreveu.

   Deixamos assim, para finalizar esta breve nota, os testemunhos de ambos.

Tomas G. Masaryk:

   Se devo dizer em que é que a minha vida atinge o seu ponto culminante, não se trata de me ter tornado presidente mas de poder honrar esse difícil dever. A minha satisfação pessoal […] é mais profunda; trata-se de, apesar da minha função presidencial, eu nada ter suprimido de importante naquilo em que acreditava e amava, quando era um estudante pobre, um professor de jovens, um crítico incómodo, um político reformador; mesmo no poder, não sigo uma lei moral diferente nem uma atitude nova face aos mais próximos, à nação e ao mundo.

   Karel Čapek:

   Somos poucos. No nosso país, cada homem tem mais deveres, incluindo os deveres cívicos, do que nos países maiores. Isso compromete os escritores, se forem capazes, a manifestar o seu interesse activo em todos os assuntos nacionais e políticos. Tal atitude trazer-lhes-á apenas dissabores, mas eles estão habituados a causar dissabores e têm de poder suportar dificuldades.

(T. S., 15.2.2015)

Imagens: Em cima, mesa de trabalho de Karel Capek. Em baixo, foto de grupo dos participantes. tendo ao fundo um painel comemorativo do Congresso do PEN de 1938, em Praga; programa do Encontro.

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Textos lidos na sessão de entrega dos prémios, no dia 18 de Dezembro de 2014 na Sociedade Portuguesa de Autores

Prémio PEN Clube Português de Poesia, referente a livros publicados em 2013

Gastão Cruz, Fogo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2013 e Golgona Anghel, Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, Assírio & Alvim, Lisboa, 2013]

O júri do Prémio PEN Clube Português de Poesia, composto por Fernando J. B. Martinho, João David Pinto Correia e Pedro Eiras, decidiu atribuir o prémio, por unanimidade, a Fogo, de Gastão Cruz, e a Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, de Golgona Anghel, dois livros publicados pela Assírio & Alvim.

Existe em Fogo uma narrativa de perda. Nas primeiras páginas, um corpo amado arde; mas do fogo desta cremação surgem redivivas as imagens do passado, perdido e recuperado, real outrora agora. Imagens: dias e noites, praias, quartos, peças de teatro, a partilha cúmplice do tempo. Breves e intensas memórias, quantas vezes concretíssimas: cafés ou bares, textos de Joe Orton, Tennessee Williams, Edward Bond, o tempo esgotado.

Gastão Cruz diz a presença destas memórias para dizer a perda. Cada imagem é também ameaça do desaparecimento, cada memória é também ausência, passado em cinzas, assombração. Por isso, Fogo subtilmente confunde vida e morte, em poemas como este:

 

Num café alta noite ao longe

te revi a uma

mesa difusamente iluminada

sob a onda do escuro que era a noite

em outubro

saímos e segui-te até falarmos

dobrada a esquina duma praça

transformada

talvez já na curva da estrada

Poema de memórias concretas – certa noite de Outubro, certo café e certa mesa –, mas também poema que cita a “curva da estrada” que, em Fernando Pessoa, diz a passagem para a morte. E assim a concretíssima “esquina duma praça” se torna significante de um lugar sem lugar; assim as palavras transfiguram o mundo, mas só porque o próprio mundo já é composto de mudança, e nele, como no devir segundo Heraclito, “nunca ninguém duas vezes entraria”.

Decerto o presente tem a intensa clareza da consciência e do sentido: meditando sobre a ruína do passado, o sujeito de Fogo pode compreender o que em tempos apenas viveu; mas esta condenação à consciência apenas revela a dor da perda. A mais extrema lucidez, a construção de um sentido através das palavras, aqui e agora, é também a mais amargurada experiência de pobreza: escassez mortal da memória.

Existe também perda em Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, de Golgona Anghel. Perda do valor das coisas, das coisas herdadas já perdidas, como aquele músico “Encontrado num contentor de rua, / sem cavalo e sem reino / (…) / quase cego, quase surdo, / (…) / ainda perseguido pela última garrafa de tinto”. Claro, este é um mundo cheio de espectaculares promessas, mundo do Chanel nº 5, dos óculos 3D, das férias na Disneylândia – mundo demasiado tardio, barroco, demasiado cheio de referências e publicidades, onde se pode apenas vender “uma boa história” e tentar resistir ao non sense do mercado generalizado.

Nenhum sujeito pode sobreviver incólume a um tal caos organizado. Assim termina um poema:

Nós, aqui, littlestranger,

degolamos pardais e fadas de porcelana.

Cobramos interesses à alegria

e vendemos suites com piscina na lua.

A batalha é nossa,

já alugámos as trincheiras,

mas custa tanto tirar os pijamas.

Eis a civilização e os seus descontentamentos: cobranças e vendas, sobrevivência, batalha, trincheiras paradoxalmente alugadas, e o saldo disfórico de um pijama que custa tanto a tirar. Como na eterna procrastinação de Álvaro de Campos, este sujeito plural de Golgona Anghel traça um violento e auto-irónico diagnóstico para tempos conformados.

Decerto existe ainda a cumplicidade com amigos, ou a ironia, ou outras frágeis formas de resistência, de sobrevivência. Existe o poema, mesmo se também o poema é como uma flor de plástico na montra de um talho, forma bela, mas artificial, kitsch, cúmplice de um mundo que é, no fundo, um matadouro.

Existe um mundo conformado e uma poesia que o descreve – mas descrever o mundo conformado não é pactuar com ele; é, pelo contrário, uma denúncia e um convite para o exercício da crítica. A trincheira, alugada ou aberta pela força da ironia, aguarda o leitor.

(Texto elaborado a partir da reunião do Júri, realizada em 5-11-2014, com redacção final de Pedro Eiras, lido por Fernando J. B. Martinho, na Sessão de Apresentação, em 18-12-2014)

Prémio PEN 2013 – Ensaio atribuído à obra de Diogo Ramada Curto Para que serve a História? (Tinta da China)

 Logo na introdução deste livro, pode ler-se um desdobrar do seu objectivo principal, que a pergunta Para que serve a História? formula: trata-se de, repetindo a questão de Marc Bloch (p.63), ir “contra os que pensam que a utilidade da história está nas lições que podem ser retiradas do passado” (p.13). Os textos aqui reunidos, produzidos em circunstâncias académicas ou destinados a crónicas regulares (Ler, Público, Expresso, Monde diplomatique), mostram uma exemplar capacidade de formular e desenvolver conceitos, ordenando-se os textos em cinco secções de clara organicidade e consistência, a contrariar a efemeridade da publicação em periódicos. Na verdade, o que se encontra são vectores confluentes de um pensamento sobre a História, que serve para “nos treinarmos a tratar o passado ou, mais propriamente, os processos de mudança como se estes fossem um país estrangeiro” em articulação com “o nosso próprio tempo” (p.13). Segundo Diogo Ramada Curto, o historiador investiga, faz e escreve a história como libertação do passado pelas operações do conhecimento, articuladas entre treino ou aprendizagem, ofício e prática quotidiana em privilegiada relação com fontes, desenvolvendo a pesquisa de arquivo em articulação com as ciências sociais.

Por assim conceber a disciplina e o ofício de historiador é que Ramada Curto pode emitir opiniões autorizadas e fundamentadas sobre as áreas abrangidas por estes ensaios, sejam elas o estado da historiografia portuguesa, ou as instituições em que trabalha o investigador em ciências sociais e em ciências humanas. Pode assim discorrer sobre a Biblioteca Nacional de Portugal (pp. 125-136 e passim), sobre as instituições de apoio à investigação e de avaliação desta (v.g., “Ciências sociais e história”, 2010). A história dos intelectuais estabelece nestes ensaios relevantes cruzamentos entre estudos de caso do século XX, mas também do século XX, formulando com pertinência relações entre a “liberdade de criação e de ensino” e a “liberdade individual, de ensino e de investigação”, lutando contra o “falso elitismo das universidades e centros de pesquisa” (p.66). Outras vias de reflexão debruçam-se sobre a voga das biografias (também) em Portugal, sobre a “história do presente” (pp.108-110), incluindo o papel da universidade (pp.115-120) e da instituição livro (tomando firme posição sobre a papel dos professores do ensino secundário e sobre os sistemas de avaliação das universidades). Apresenta ainda a perspectiva do historiador sobre Camilo Pessanha (a propósito da edição por Daniel Pires da Correspondência, dedicatórias e outros textos, 212, pp.155-161), em considerações muito enriquecedoras para quem trabalha a fundamental obra de Pessanha pelo lado dos estudos literários. O mesmo sucede com a leitura crítica dos ensaios de teor político, sobre o iberismo e o “pensamento imperial”, de Fernando Pessoa (pp.162-169).

Analisadas as obras de ensaio publicadas em 2013, o júri do Prémio PEN 2013 – Ensaio entendeu atribuir o galardão a este Para que serve a História?, de Diogo Ramada Curto, editado pela Tinta da China, por neste volume reconhecer o mais nobre e mais profícuo sentido do ensaio: no desafiante sentido herdado de Montaigne, aqui se questiona o humano na sua face de hoje – que é como quem diz, sem tempo porque fundindo todos os tempos na reflexão séria, rigorosa e aberta que entendemos ser a deste livro.

Maria João Cantinho, Nuno Crespo, Paula Morão

Prémio PEN de Narrativa

 É a seguinte a fundamentação do júri para a atribuição ex-aequo do Prémio PEN de Narrativa deste ano a Ara, de Ana Luísa Amaral e As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral.

 Em Ara, o seu primeiro romance, a poeta, ensaísta e professora universitária Ana Luísa Amaral rasga um universo de palavra acutilante e solta. Rompe convenções aparentemente ultrapassadas e irrompe no universo da ficção, ampliando-o. Segundo Maria Velho da Costa: «Assente na pedra do lar um prisma multifacetado e translúcido: o amor único, a palavra. A deriva do arado sobre a ara.»

Neste romance, a experiência do trabalho da matéria verbal é associada à experiência do investimento numa forma de amor entre pessoas do mesmo sexo. Daí resulta a composição de uma teia complexa de consonâncias e dissonâncias. Com um registo ambivalente entre a narrativa ficcional e o género poético, alternando prosa confessional, diálogo a duas vozes e poesia, Ara é uma elaboração original sobre as possibilidades da prosa e os respectivos limites, ou as suas impossibilidades intrínsecas. Esta é uma prosa que procura um corpo que a habite, «ao menos o sangue necessário» e linhas de vida que a alimentem, uma nova litania e uma «nova voz de gente». Uma prosa que se constrói a pulso e que, ao desafiar tabus, antecipa a respectiva ultrapassagem na sua própria respiração e cria uma segunda pele, uma nova e liberta naturalidade.

Desafiando convenções e classificações, destacam-se em Ara, de Ana Luísa Amaral, a selectividade da linguagem e a lei de atracção que reorganiza em índice o mosaico das imagens vividas.

 Em As Primeiras Coisas, o crítico literário, tradutor e assessor de comunicação editorial Bruno Vieira Amaral surpreende pela maturidade estética, invulgar numa primeira obra. Com particular originalidade, faz surgir uma personagem colectiva marcante, o Bairro Amélia. Cria-a a partir de um inventário memorialista elaborado pelo protagonista-narrador do romance, de regresso a esse «bairro meteorito onde confluem vários acidentes históricos» e onde cresceu: um bairro social situado na Margem Sul do Tejo. Os registos deste narrador (com traços autobiográficos) são crus e ironicamente amargos. A reabilitação ambígua, realista e efabulatória, que ele faz do Bairro Amélia é cimentada por uma estrutura não-convencional (prólogo longo, 86 fichas/capítulos, dezenas de notas de rodapé informativas ou meta-literárias). A justaposição de registos, personagens, dados e acontecimentos testa as potencialidades estilísticas do autor. Assim, Bruno Vieira do Amaral dá voz, única, a um espaço e a figuras inquietantes. Figuras que emergem das rotinas de um quotidiano socialmente ignorado, fragmentárias na sua forma, mas completas na sua humanidade.

Teresa Salema, Filipa Melo, Vítor Viçoso

Prémio PEN Clube Português de Primeira Obra

Ex-aequo: Rosa Oliveira, Cinza, Tinta-da-China, e João Pedro Cachopo, Verdade e Enigma, Ensaio sobre o Pensamento Estético de Adorno, da editora Vendaval

É com grande satisfação que o júri do Prémio Primeira Obra do Pen Clube Português, coordenado pelos presidentes dos júris que tiveram em conta as recomendações de todos os seus membros, decidiu atribuir este Prémio a duas obras em ex aequo, a saber, ao livro de poesia de Rosa Oliveira, Cinzas, da editora Tinta da China, e à obra de João Pedro Cachopo, Verdade e Enigma, Ensaio sobre o Pensamento Estético de Adorno, da editora Vendaval. O júri decidiu que estas obras reuniam ambas as condições essenciais para a atribuição do prémio, pela sua excelência, no que respeita a vários aspectos que devem ser considerados diferenciadamente, uma vez que a natureza dos géneros o exige.

Primeira obra de poesia de Rosa Oliveira, Cinza desafia o seu leitor para plurais e surpreendentes jogos de linguagem: cruzando homenagens a poetas (como Ruy Belo, EmilyDickinson ou TedHughes), a filosofia, a astrofísica, mas também casas em Espinho, o Museu Gulbenkian, um irónico conselho (“não bebam moëtetchandon de estômago vazio”), a retórica das confissões, a encenação dos desabafos, o pequeno e o grande – este livro inventa modos de interrogar o mundo, ou talvez a sua cinza.

Trata-se de avaliar a instabilidade de todas as coisas – das esperanças políticas traídas até à formação do universo. E se “nos longos meses de verão a begónia subiu pelo vidro / agora verde / entretanto gente nasceu, morreu gente e ninguém foi salvo”. Ninguém é salvo, se tudo é instável; se “foi possível [uma] longa marcha para a mediania”. Mas em Rosa Oliveira esta forma de visão melancólica das coisas contrasta com ironias, protestos, interrogações. Cinza não é apenas o juízo pessoal de um mundo, mas também a procura de uma linguagem, ou de várias. E se o mundo parece insolúvel, Rosa Oliveira escreve: “algures na infância / percebera que é possível resolver um problema / demonstrando que não tem solução”.

Como escreve Fernando J. B. Martinho, Rosa Oliveira, que se situa “cronologicamente mais perto dos poetas dos anos 80 do século passado, mas [vem], com o seu livro de estreia, Cinza, uma das mais sérias revelações dos últimos anos, muito ao encontro do amargo humor e da desenvoltura irónica dos seus pares mais novos, uns e outros dando expressão a um mal-estar que diz de inúmeros modos que ‘parece não haver alternativa à vida’” (Relâmpago, nº 33).

(Texto elaborado a partir da reunião do Júri realizada em 5-11-2014, com redacção final de Pedro Eiras e citação de F.J.B. Martinho, lido por João David Pinto Correia)

 

No que respeita à obra de João Pedro Cachopo, Verdade e Enigma, Ensaio sobre o Pensamento Estético de Adorno, será de ressaltar a forma rigorosa como o autor demonstra a singularidade do pensamento de Adorno sobre a arte, não apenas realçando os aspectos mais centrais do pensamento do filósofo, mas também pelo modo ágil como estabelece uma importante síntese dos diálogos, das continuidades e das rupturas que a obra de Adorno protagoniza com os temas e autores. Para Cachopo, a estética de Adorno não assenta no pressuposto mais tradicional e convencional de pensar a verdade da arte, mas passa sobretudo, por uma proposta de uma figura enigmática do teor de verdade das obras de arte, no sentido de uma resistência à sua interpretação.

É precisamente deste aspecto que parte o autor, auscultando o pensamento de Adorno e ao tomar como central o “carácter enigmático” das obras de arte. Por essa razão, a obra deste jovem autor comporta um risco ou um desafio, o qual consiste na captação e na exploração crítica do “teor de verdade” das obras de arte. E que a verdade da arte seja, para Adorno, como nos mostra João Pedro Cachopo, inseparável do seu potencial crítico e da sua negatividade histórica e social, isso constitui uma das características fundamentais e interessantes do pensamento adorniano.

Pensar Adorno na sua actualidade, tal como o autor aqui nos propõe, numa perspectiva, não apenas estética, mas também política, eis o que consubstancia o lado mais estimulante para o leitor de Adorno. Trata-se, assim, de pensar criticamente e dialogar com a possibilidade da crítica de arte, nos dias que correm, de forma urgente e não se limitando a uma forma mais ou menos inócua de escrever sobre a estética, o belo e o sublime. A necessidade do questionamento e de um posicionamento reflexivo sobre o que é o “olhar estético” e sobre uma estética do enigmático, eis o que atravessa a obra de Adorno, sendo visível no modo como o filósofo se dedicou à obra de vários autores como Hölderlin, Mahler, Beethoven, Celan, Kafka, Beckett, entre muitos outros.

O modo excepcional como João Pedro Cachopo convoca estes problemas, tanto pelo seu rigor e ineditismo, como pela sua escrita sólida e prolífica, vem preencher uma lacuna sobre o pensamento do filósofo, pois não há em Portugal nenhuma obra tão significativa como esta. Por outro lado, a leitura de Cachopo sobre o pensamento de Adorno também se distingue pelo seu carácter heterodoxo, afastando-se de visões simplistas e redutoras do seu pensamento.

Oferecendo à investigação portuguesa uma obra referencial, o autor defende essencialmente a ideia de um potencial crítico da obra de arte, em constraste com uma ideia de arte como consolação. Este modo crítico de pensar a arte constitui também a mais fértil forma, no sentido em que convoca o seu leitor para uma abertura do pensamento estético, combatendo determinados preconceitos que contribuem para um certo olhar enviesado sobre a arte e em que o seu poder político e subversivo se desvanece, dando lugar a uma visão mais redutora da estética.

Por isso, termino com uma citação de João Pedro Cachopo, exprimindo o modo como esse potencial crítico da obra de arte se articula tão intimamente como o seu carácter enigmático: “A arte seria crítica não só na medida que afirma o ainda não é, ou na medida em que — para evitar o risco de consolar — nega o que é e já foi, mas na medida em que actua criticamente sobre as condições racionais que determinam o que pode ser. Ela intervém, em virtude do seu carácter enigmático  — em virtude, portanto, do que nela permanece irreconhecível e resiste à compreensão —, no campo em que se decide a ‘possibilidade do impossível’ ou, melhor dito, em que se problematiza a fronteira entre ‘possível’ e ‘impossível’, sendo aí, nos termos de uma crítica em acto das condições de inteligibilidade e transformação do real, que se joga a efectiva concretização do seu potencial crítico”.

Nuno Crespo e Maria João Cantinho

Sessão de entrega dos prémios PEN de Poesia, Ensaio, Narrativa e Primeira Obra

Teve lugar em 18 de Dezembro de 2014, na Sociedade Portuguesa de Autores, a sessão de entrega dos prémios PEN para as obras publicadas em 2013 nas modalidades de Poesia, Ensaio, Narrativa e Primeira Obra.

Contamos publicar em breve os textos dos júris sobre as obras, que já noticiámos neste site. Segue-se o texto de intervenção da presidente do PEN, Teresa Salema:

 Pela 35ª vez consecutiva, o PEN Clube Português acompanha o culminar de todo um processo que implica uma coordenação e uma logística para muitos impensável e que nos mobiliza durante uma grande parte do ano. Move-nos a convicção de nos inscrevermos numa longa história de homenagem à criação, na sua diversidade e pluralidade, numa dinâmica de afinidades e resistências. 

   Se a imagem do iceberg é frequentemente usada para significar os aspectos e momentos visíveis e invisíveis de toda a figuração cultural, já no que diz respeito à literatura talvez se pudesse falar de um iceberg invertido, na medida em que a procura de uma obra que nos amplie os horizontes da percepção e imaginação, uma obra que intensifique a nossa inserção na complexa teia do tempo e do espaço, tem muitas vezes de acontecer após uma travessia dessas paisagens desoladoras em que se tornaram as grandes superfícies que vendem livros. E também algumas livrarias – basta recordarmos como eram e no que se tornaram.

   E contudo escreve-se sempre. E contudo muitos editores confiam nos autores que arriscam o exercício firme e feroz da palavra. E tão-pouco o PEN rema contra aquela maré que tudo faz para fazer equivaler globalização a americanização, a – perdoem-me a hibridez do que vem a seguir – “lightização” da literatura: apenas continua, na exigência que pauta o nosso trabalho, a inscrever-se na preocupação de detectar o que para nós continuam a ser os filões da criação que tornam visível o que de outro modo permaneceria na obscuridade – ou talvez nas luzes de néon de capas mainstream, de tessituras de palavras arbitrariamente alinhadas mas sem verdadeiro texto.

   Este ano houve uma selecção particularmente plural dos júris, da qual resultaram intensos debates e manifestações de uma diversidade que contribuiu para conduzir a várias situações de ex-aequo. Estas abrem, para muitos de nós, o leque da criação que nos faz deixar para trás as longas horas de avanços e recuos nas escolhas. Com essa variedade de decisões nada mais pretendemos do que chamar a atenção para a infinitude de tessituras que emergem e palpitam para além das teias sufocantes das grandes superfícies. É com a letra persistente, é com as pequenas livrarias, é com os editores que em nós confiam. é com a DGLAB, é com o trabalho de todos que continuamos a celebrar a alegria da criação. 

Nas imagens, vemos respectivamente os premiados (Ana Luísa Amaral, Bruno Vieira Amaral, Rosa Oliveira), Gastão Cruz, Golgona Anghel, João Pedro Cachopo e Diogo Ramada Curto) e membros dos júris (Fernando J. B. Martinho, Filipa Melo, Paula Morão, Nuno Crespo, Maria João Cantinho, Vítor Viçoso, João David Pinto-Correia e Teresa Salema).

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Sessão de Entrega dos Prémios PEN

A sessão pública de entrega dos prémios PEN de Poesia, Ensaio, Narrativa e Primeira Obra terá lugar no Auditório Carlos Paredes da Sociedade Portuguesa de Autores, R. Gonçalves Crespo, 1150-186 Lisboa (Metro Picoas), na quinta-feira dia 18 de Dezembro de 2014 às 18.30 horas.