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Prémios PEN para as obras publicadas em 2015 – sob o patrocínio da DGLAB

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Teve lugar no dia 29 de Novembro de 2016 a sessão de entrega dos prémios PEN (patrocinados pela DGLAB) na Sociedade Portuguesa de Autores a Armando Silva Carvalho (A Sombra do Mar, Assírio & Alvim), na modalidade de Poesia, Marinela Freitas (Emily Dickinson e Luiza Neto Jorge: Quantas Faces?, Afrontamento) e Paulo de Medeiros (O Silêncio das Sereias: Ensaio sobre o Livro do Desassossego, Tinta-da-China), na modalidade de Ensaio, e Mário Lúcio de Souza (Biografia do Língua, Dom Quixote). Não houve a assinalar uma Primeira Obra premiável.

Com a presença de Luís Filipe Castro Mendes, Ministro da Cultura, e dos Presidentes da SPA e do PEN, José-Jorge Letria e Teresa Salema, a sessão contou ainda com as intervenções de membros dos respectivos júris.

Intervenção da Presidente do PEN:

A estreita margem da literatura

   Numa conversa havida há alguns anos com Teolinda Gersão e outros colegas, constatámos que a margem de que dispõe o escritor, nos países em que a liberdade de expressão está garantida pela lei fundamental, acaba quase sempre por ser tão estreita como a crista de uma cadeia de montanhas com precipícios dos dois lados: ou os registos mainstream da literatura de aeroporto, ou aquele silêncio que tinha, no dealbar do século XX, sido a opção de um fictício Lord Chandos saído da pena de Hugo von Hofmannsthal.

   Na sua 37ª edição, os júris dos prémios PEN principiam por confrontar-se com uma pluralidade de escritas que nos deixam perplexos e pela qual nunca agradeceremos suficientemente à generosidade das editoras. Isto porque quando os caminhos da avaliação se estreitam, verificamos que quase todas elas produziram obras de destaque, a que a escassez de uma short list nunca pode fazer jus. E só nos furtamos, enquanto júri, à ansiedade da escolha final porque sabemos que esta não pode ser senão o resultado de um compromisso. São raros, embora existam, os momentos altos de um consenso unânime.

   Trata-se aqui, parafraseando a ironia brechtiana do pós-guerra numa sociedade que se dizia socialista, dos “esforços das planícies”. Algo semelhante se passa nas democracias e na era digital. Mas será que poderemos responsabilizar a actual pluralidade dos meios de divulgação, a transformação contemporânea de muitos encontros literários em sedutoras moedas de troca de ludicidade frequentemente equívoca? Teremos direito a lamentar, obviamente não tanto os anos de censura em que se escrevia com letras cautelosas em ar rarefeito, mas aqueles anos que se seguiram ao inevitável frenesi de leituras políticas e em que as horas passadas em livrarias, a rede viva das tertúlias ainda sustentáveis, a opinião sobre um livro, tudo isso fazia parte do nosso respirar quotidiano?

   Foi nesses anos que nasceram os prémios PEN, de certo modo a contrapêlo das práticas seguidas por outros Centros PEN por esse mundo fora. No final dos anos 70, o PEN teve a cabo uma tarefa intensificada, nomeadamente de consagrar a liberdade de criação como forma suprema da liberdade de expressão – ou seja, de uma expressão liberta de amarras censórias ou de ameaças de confiscação ou outro tipo de punição mais grave. Sim, estou a pensar no caso das Novas Cartas Portuguesas e deveríamos interrogar-nos até que ponto elas terão contribuído para abalar o apodrecido edifício do regime em termos de contestação irónico-satírica do discurso oficial. Mas ao longo destas quase quatro décadas, os caminhos da liberdade de expressão e criação, consignada na Carta do PEN Internacional, não deixaram de ser por vezes labirínticos. Por vezes, felizmente poucas, a liberdade de decisão dos júris foi contestada por alguns e defendida sempre por aqueles que nunca perdem de vista a pluralidade de gostos e de posições. E as decisões finais, por polémicas que sejam, sempre terão de ser defendidos aqui neste fórum onde nos encontramos. E tendo sempre em vista a já estreita selecção das short lists, a escolha final tem assim um carácter de vintage que muito me apraz sublinhar para os prémios deste ano, não só porque acompanhei mais de perto ainda o trabalho dos júris em que estive também envolvida. Tão pouco agradeceremos o suficiente ao Ministério da Cultura e à DGLAB pela confiança no nosso trabalho.

   Porém não percamos de vista que continua a tratar-se de “esforços das planícies”. Esta cadeira vazia lembra-nos escritores encarcerados e não só em continentes longínquos. Numa carta escrita à sua colega turca Asli Erdogan, a cumprir uma pena na prisão de Bakirköy, a escritora alemã Nina George lamenta as perseguições de que têm sido alvo não só os reais mas também alegados, potenciais ou putativos opositores ao regime autocrático do presidente Erdogan (a coincidência do apelido é acidental). As tendências de restrição da liberdade de expressão e movimento, em nome de uma presumível segurança, espreitam por todo o mundo e também na memória histórica de muitos de nós. Nina George termina evocando o dia em que ambas se encontrarão para saírem ao sol, conversarem, jantarem juntas. Tudo o que parece muito simples e para nós dado como garantido, mas que se conquista e se mantém graças à tenacidade de quem nunca deixa de escrever, seja contra a repressão, seja contra a vulgaridade, seja contra o silêncio.

Teresa Salema

Sobre o Prémio de Poesia:

A SOMBRA DO MAR DE ARMANDO SILVA CARVALHO

 A sombra do mar, último livro publicado por Armando Silva Carvalho, contém um poema intitulado «À sombra do mar», no qual se discorre poeticamente sobre alguns heterónimos de Pessoa e onde são referidos, de fugida, Camões, o Padre António Vieira e Cesário Verde, este último − sabêmo-lo − referência antiga do poeta que se estreou em livro com Lírica Consumível, e que, tal como Cesário, andou durante muito tempo a medir as distâncias entre a cidade e o campo. As duas sombras parecem apontar assim para mares diversos, mas contudo íntimamente ligados. No poema referido, a vastidão e força serão as da própria poesia, lamentando o poeta que os textos enxugados dos escritores mencionados não sejam alimento comum de um povo que «não soube ler na sua própria língua». O sentimento ressentido ou o ressentimento sentido deste poeta que se qualificou sempre de acidental é uma tonalidade afectiva da sua poesia, sempre firmemente refractária a enxúndias poéticas, à goma elástica de certos versos que por vezes nos assolam (e daí o adjectivo «enxugado»), usado ao falar de alguns dos seus confrades mais notáveis. O mar do título parece ter uma dimensão metafísica, sugerindo o poderoso ilimitado. A poesia de Armando Silva Carvalho foi sempre uma rejeição do supérfluo, das modas e bordados poéticos com seus rendilhados enfunados e pletóricos. E se já era assim em jovem quando escrevia: «Deitado no meu corpo/disfarço o mais que posso/o artifício que encanta», dando-nos um vislumbre da importância que as coisas em geral, mas particularmente a coisa-corpo que nos arrasta pelo mundo, mesmo o mais espiritual, têm na nossa vida, gerando por vezes «funestas alquimias» que nos são decisivas. Se já nessa altura, de florescência incontida, cultivava a magreza das palavras, à sombra em parte da poesia 61 e dos poetas seus amigos que as exercitavam na corda bamba da expressão essencial desses tempos, e sobretudo de João Cabral de Melo Neto, acontecer. A velhice e a decadência física que geralmente a acompanha não tem sido tema de eleição da poesia portuguesa, apesar de algumas obras fundamentais que tratam desse tema, como são os casos de Limite de Idade de Vitorino Nemésio e de Terceira Idade de Mário Dionísio. Mas o tom de A sombra do Mar não é desvalorizador, como no poeta açoreano, jocoso e auto-irónico, nem tem a ponderação discursiva do autor de Solicitações e Emboscadas. Aqui o sentimento é o de uma angústia de idades sobrepostas, de aceitação estóica, de uma corajosa mas lamentativa confrontação, sabendo-se que a sombra vai progredir sempre do mesmo modo, como o rugido imparável e inevitável do mar que se contempla com prostração e recolhimento, mas com essa espécie de ataraxia que a contemplação provoca em resultado do sentimento de recolhimento e identificação.

Se é verdade que ao longo de uma obra extensa como a deste escritor, podemos encontrar momentos de diferenciação, de alguma clivagem, em livros como Alexandre Bissexto e, sobretudo em Canis Dei, com a acentuação de preocupações que, à falta de melhor, podemos classificar como espirituais, e mais recentemente a partir de De Amore, livro que abre caminho a A sombra do mar, em que predomina uma atmosfera crepuscular, mas sóbria e contida como sempre por uma ironia ácida e, por vezes, mesmo violenta, não é menos verdade que a poesia de Armando Silva Carvalho manteve sempre o registo da distanciação eloquente, traduzida por uma acidez enegrecida e densa, por vezes violenta, que frequentemente se transforma em auto-ironia, sem qualquer comiseração. Lemos nos poemas deste livro, a consciência dorida da inevitabilidade do envelhecimento: «A verdade é só uma, o que foste ontem/já não te conhece» (…) A idade abafou todo o prodígio, /palmo a palmo, vou medindo o esplendor em dissolução. Palavra por palavra». Há também aqui algo de premonitório, como se alguns poemas deste livro fossem o primeiro encontro com um tempo que já começa mas que ainda não é completamente, uma espécie de compte rendu prévio do que se sabe inevitavelmente vir a outra grande referência, poeta da secura e da dureza, muito mais o faz na actual situação da sua vida em que alternadamente contempla o mar da poesia, sabendo que a sombra do tal outro mar de que falei, lhe enegrece os dias e o deixa face ao inelutável «peso das fronteiras», para usar o sugestivo título de um dos seus livros.

O mar deste livro, que cintila nos textos as suas diversas acepções e que é sempre metáfora do que é essencial para o homem (o amor, a morte, o tempo, o júbilo, o sonho, Deus), é também o mar concreto de uma longa vivência nas suas margens. Muitos destes poemas foram escritos junto às escarpas do mar de Peniche; e no inverno, para evitar as suas fúrias, por vezes dentro de um carro, não já o nervoso e impulsivo «amante japonês» de outros tempos, mas o abrigo mais caseiro de um tempo contemplativo e de grandes (e pequenos) balanços. Estamos já longe, felizmente, desse outro mar de Peniche, horizonte da fortaleza, paisagem de cativeiro árduo e persistente que lemos em Os ovos de oiro «onde os peixes de atiram/contra os barcos/ e as grutas dos rochedos/nada acoitam.», mas continuamos no mar que de forma mais intensa e directa ou apenas discretamente, sempre assombrou o imaginário de Armando Silva Carvalho. A sua voz persiste, faz-se ouvir, clamando das profundezas, a invadir um quotidiano discreto, de hábitos martelados, trémulos, de uma aprendizagem do nada ou do muito pouco, quase monástico. Fala-se, neste livro, da solidão negociada com a morte, ouve-se nele a sua voz monocórdica, por vezes exaltada, mas sempre intempestiva, como a dos loucos.

José Manuel de Vasconcelos

Gostaria de felicitar vivamente Armando Silva Carvalho não apenas por este livro, A Sombra do Mar, agora muito justamente premiado, mas também por toda a sua obra; pela criação de uma poética muito singular, na qual a ironia sustenta uma atitude analítica e crítica que Armando Silva Carvalho soube articular com o intimismo, com a expressão da experiência sentimental e com a leitura da tradição poética, que lhe suscitou um diálogo criador. A Sombra do Mar representa um ponto muito alto numa poética sempre marcada pela coragem de ver – e de se ver a si mesmo – sem concessões ou facilitismos. Trata-se de um livro lúcido, às vezes duro, mas também terno e poderoso porque nos mostra desabridamente a nossa condição frágil, precária; um livro que nos confronta com a pobreza essencial da condição que é a nossa, inevitavelmente condenados de um modo ou de outro à perda e ao nada. Mas, por isso mesmo, este é também um livro que nos deixa uma profunda sensação de autenticidade. Foi Montaigne quem disse: “eu não pinto o ser, pinto o passar”.  A sensação que nos deixa o livro de Armando Silva Carvalho é que nele se “pintam” rigorosamente as duas coisas.

Rosa Maria Martelo

Acerca do prémio de Ensaio

         Cumpre-me, na qualidade de porta-voz do Júri do Prémio de Ensaio PEN Clube 2016 constituído por Teresa Salema, presidente do PEN Clube Português, por João David Pinto Correia e por mim própria, dizer aqui algumas breves palavras e, desde logo, felicitar os vencedores ex-aequo, por unanimidade, deste prémio: Paulo de Medeiros com O Silêncio das Sereias: ensaio sobre o “Livro do Desassossego” (Tinta-da-China) e Marinela Freitas com o ensaio Emily Dickinson e Luiza Neto Jorge: Quantas faces?(Afrontamento).

         E de os felicitar redobradamente, tendo em conta o ano de excepcional qualidade ensaística patente na short list que oportunamente o PEN Club divulgou e da qual faziam parte ensaios de vulto como os de António Marques A filosofia e o Mal. Banalidade e  radicalidade do mal de Hannah Arendt a Kant; Pedro Eiras, Platão no Rolls-Royce: Ensaio sobre a Literatura e a Técnica e Ricardo Gil Soeiro, A Sabedoria da Incerteza: Imaginação Literária e Poética da Obrigação (Broch, Coetzee, Lispector, Llansol e Vila-Matas).

         Começaria talvez por dizer que a atribuição deste prémio ex-aequo constituiu um desses encontros improváveis entre dois ensaios distintos que, aproximando metodologias, estéticas, tempos e espaços diversos, estabelecem um diálogo a várias vozes, não menos imprevisto mas surpreendentemente iluminador. Um diálogo que, a partir de três grandes autores representativos, procura problematizar a essência da escrita e o papel do escritor na modernidade, considerada desde as origens oitocentistas à sua expressão mais “tardia”, quero dizer, desde as origens ao tempo presente que é o nosso. Resgatando estes autores da sombra da discrição que, em maior ou menor grau, os envolve (em particular, Emily Dickinson e o enigma da sua auto-reclusão), procurando captar as múltiplas faces de rostos que permanecem esquivos, fazendo incidir sobre eles variações de luz ou de perspectiva, surpreendendo-os, interrogando-os, na tentativa de uma leitura nova ou renovada, mas em qualquer dos casos, desafiante.

 Naturalmente, entende-se aqui o ensaio quer na acepção original de Montaigne, enquanto escrita de si, quer na acepção benjaminiana e adorniana enquanto forma aberta, instável, escrita a bordo dos dias e dos saberes, numa aproximação progressiva e desassossegada do objecto que, neste caso, é tanto o enigma da escrita de Bernardo Soares/Pessoa, de Emily Dickinson e Luiza Neto Jorge quanto a dos dois ensaístas que a si mesmo se buscam e se ensaiam no objecto de investigação, nas sucessivas aproximações, hesitações, modulações e fulgurações do pensamento que perseguem, nas conexões e imagens que entretecem o gesto de escrever. Ousando pensar-se, no gesto de ir rasgando caminho por entre as ruínas do que já foi pensado.

Se estas foram razões determinantes para a escolha do Júri, convém sublinhar que nesta decisão pesou igualmente o facto de as duas obras vencedoras terem sido concebidas de raiz como um ensaio e não como uma recolha de textos dispersos ou dissertação em torno de um tema, mesmo se em ambos os casos a escrita surge profundamente ancorada às circunstâncias da vida académica e às exigências do rigor científico: no caso de Paulo de Medeiros, trata-se de um ensaio editado em primeira mão como obra original e, no de Marinela Freitas, trata-se de uma tese de doutoramento que foi refundida para publicação, como a alteração do título indicia.

              É, de alguma forma isso mesmo que afirma Paulo de Medeiros na “Nota Prévia” ao sublinhar que a escrita deste ensaio é o resultado de um longo processo de questionamento, um meio de encontrar respostas para as diversas perguntas de índole teórica que durante vários anos o desassossegaram no âmbito da leccionação de um seminário de pós-graduação sobre o Livro do Desassossego. Neste sentido, diz o ensaísta, ter-se-lhe tornado claro “que só através da escrita um pouco mais sistemática e desenvolvida poderia encontrar algumas respostas possíveis. O Livro do Desassossego é, antes de mais, um anti-livro, que coloca em questão, de forma absoluta e radical, muitos dos pressupostos da literatura. E fá-lo, antes de mais, através da técnica do fragmento. Seria tentador então, ao escrever sobre o Livro do Desassossego, fazê-lo igualmente através de fragmentos. (…) Daí a escolha do ensaio como forma mais apropriada de responder a alguns dos desafios colocados pelo texto de Pessoa; um ensaio fragmentado em pequenos ensaios, cada um dirigido a um aspecto individual do texto”.

         Longe de ser mais um livro a acrescentar à vasta bibliografia pessoana, O Silêncio das Sereias representa assim, em primeiro lugar, o gesto de ousadia que caracteriza todo o ensaio. Uma tentativa de abordagem daquele que é porventura o texto mais enigmático e complexo de Pessoa (desde logo no que diz respeito a questões de autoria, de alteridade, de heteronímia, de textualidade e de representação), mas também um admirável esforço de síntese, tendo em conta a torrente da bibliografia pessoana e a actualizada rede de relações que estabelece com diversos autores centrais da modernidade, desde logo com Kafka que inspirou o título deste ensaio. Uma tentativa de abordagem que recorre à mesma “técnica” utilizada no Livro do Desassossego, procurando cercá-lo através da rede da escrita, de um conjunto de pormenores significantes, de imagens-tema e de fragmentos que se oferecem ao leitor como única bússola possível para navegar neste diário do acaso. E dessa forma iluminando, aqui e ali deixando entrever o rosto de Bernardo Soares de quem Pessoa disse um dia ser o seu “semi-heterónimo” mas que a si próprio se define como sendo “ninguém” ou “nulo”, uma “vida lida”. Navegação sem fim que, tal como no inacabamento do Livro do Desassossego, se configura como inquietação infinita, um permanente desassossego que, em última instância, apenas o canto ou o silêncio das sereias da escrita pode expressar e, porventura, apaziguar. O Silêncio das Sereias é um ensaio de navegação, a vários títulos, notável.

         Se a sedução das palavras e os seus perigos, mas também a imaginação e o sonho constituem no Livro do Desassossego uma forma de resistência à mediocridade e aos tempos de indigência que são hoje os nossos, essa resistência manifesta-se igualmente, ainda que por vias distintas, na escrita de Emily Dickinson e de Luiza Neto Jorge que o ensaio de Marinela Freitas procura acompanhar e desmontar. Trata-se igualmente de um ensaio notável, até pela dificuldade acrescida de um duplo objecto de reflexão, pela profundidade crítica de que se reveste, pela escolha de duas grandes poetas da transgressão e da opacidade da linguagem. Um ensaio que, como sublinham as prefaciadoras Ana Luísa Amaral e Rosa Martelo, é, em certo sentido, pioneiro ao procurar conciliar uma visão prospectiva e uma visão ou visitação retrospectiva da modernidade. É essa perspectiva movente, em constante oscilação ou deslocação, que a forma do ensaio traduz construindo-se como permanente interrogação, abrindo caminhos para um “abismo de possibilidades” mais do que para um conjunto de respostas, justamente um aspecto que o júri não poderia deixar de valorizar.

         Neste sentido, desenhando-se como tentativa de desvendamento do rosto de duas mulheres poetas, de invenção ou reconstrução de um diálogo de faces que se olham através do espelho do Atlântico, do biombo da distância temporal e espacial, o ensaio de Marinela Freitas procura uma leitura do mundo moderno a partir do lugar de uma fala feminina e do seu gesto primitivo, genesíaco, de desnomeação do mundo, de (re)invenção da palavra e da língua que lhe dá forma e o diz. Gesto simultaneamente transgressor e criador que tanto Emily Dickinson e Luiza Neto Jorge, convergindo ou divergindo no desenho, souberam, levar a cabo e que Marinela procura interrogar e dar a ver.

         Pelo contributo precioso que Paulo de Medeiros e Marinela Freitas deram com estas obras ao prestígio do ensaio como género, pelo rasgar de novos caminhos de reflexão e de leitura que as suas obras representam, pela forma como interpelam o leitor, cumpre-me apresentar, em nome do Júri do Prémio de Ensaio PEN Clube, as maiores felicitações a ambos e desejar que, para além do reconhecimento do seu trabalho, o Prémio que hoje aqui vão receber possa constituir um estímulo para a escrita de novos ensaios, um desafio para novas e ousadas navegações.

Isabel Cristina Pinto Mateus

Acerca do Prémio de Narrativa:

O júri do Prémio de Narrativa do PEN Clube Português regozija-se pela decisão de atribuição do Prémio à obra do escritor Mário Lúcio Sousa, felicitando o autor pelo seu livro notável, bem como a sua editora (e os seus representantes). Agradecemos também aos presentes, ao representante da DGLAB e ao senhor Ministro da Cultura, que muito nos honra com a sua presença.

Várias são as razões que motivaram a nossa escolha, entre várias obras de grande qualidade, como já publicitámos na shortlist. Trata-se de um romance tocante e avassalador, que mergulha a fundo nas cicatrizes da história comum dos nossos povos e do colonialismo. Por outro lado, a sua escrita fluída, ágil e muito inovadora, a vários níveis, recupera, de uma forma muito feliz, uma tradição oral que se encontra desvalorizada na literatura actual e que importa recuperar. Biografia do Língua é também uma homenagem ao poder de encantamento da linguagem, que se revela aqui muito imagética e cheia de recursos, em que Mário Lúcio Sousa nos mostra o poder da liberdade e que é ao mesmo tempo o da palavra, e, antes de tudo,a expressão da máxima potência da linguagem.

Mediante o dispositivo narrativo da mise-en-abîme, o autor cria o efeito de conto, através das histórias de um condenado à morte que, perante o pelotão de fuzilamento, pede um último desejo, o de contar a história de um escravo fugido. E,à medida que nos conta a história desse escravo fabuloso, o Língua, as armas do inimigo vão-se acanhando, a guarda vai baixando e a paz vai-se instalando, dando assim lugar a um estado inaugural da língua e do seu poder simbólico de libertação, de fundador da comunidade. Tal como Xerazade na sua astúcia, ao contar as suas histórias, noite após noite, ao rei Shariar da Pérsia, também a narração do condenado contém a possibilidade da sua salvação, adiando o momento da morte.

Como reconheceu o próprio autor, na “Pré-história”, o capítulo que antecede o romance, «Construir uma narrativa com base no tempo das histórias, e não no tempo da história, é a linguagem do livro. Quem ordena o tempo não é o relógio, mas a língua». (p. 12). É este o excelso poder da literatura, o de fazer saltar as malhas do espaço e do tempo, nesse exercício de reinvenção e de arte de contar. Há neste livro um embalo antigo e ancestral que parece nascer da própria magia da música, nesse universo que é também o do autor do romance, onde a linguagem encontra a sua energia vibrante e intensa. Matéria ou magma de que são feitos os sonhos de um povo, que fundam o seu tempo e o seu lugar, esse lugar «maravilhoso» que é, não apenas físico, mas também ideal, a Falésia é acomunidade, o reino dentro de um reino, que nasce a partir da morte, e cresce a partir da história que é contada e da onomástica que se vai construindo, como uma babel apaziguada pela língua reinventada, que se torna comum, benigna, salvadora e vital. Trata-se da história de um povo, da história da escravatura, de uma distopia que se torna afinal numa utopia, real (afinal, na ficção é possível) e essa transfiguração-salvação chega-nos precisamente dos efeitos mágicos da linguagem, essa que falamos e nos molda, mas também a que exerce sobre nós um encantamento. Nasce da língua que usa um condenado à morte, que perpetua a vida de uma comunidade (e de si próprio) no gesto de narrar, perpetuando uma tradição e pagando uma dívida que tem para com a memória colectiva.

A língua – e o Língua, nome do protagonista – é nossa. Tal como o são os filhos comunitários da Falésia. A nossa língua,tal como os meninos da falésia «que mamam em indistinta teta», «brincam na soleira de qualquer casa», «comem onde lhes é oferecido», «dormem onde cabeceiam», «vestem a roupa de qualquer um». É isto a nossa língua, entretecida com a comunidade e a sua experiência.

Porém, as personagens de Mário Lúcio, os falesianos, não querem fazer história: eles «querem ouvir história». Eles vivem dentro de uma história, tal como todos nós, vivem na «história nossa de cada dia», só que não nos damos conta.  Porque, há ventos e tempestades, há ínvios caminhos que nos afastam. E qualquer história é habitável. Basta saber entrar lá dentro, talvez escutá-la. E Mário Lúcio soube-o.

«É isto a liberdade?», pergunta-nos o narrador do livro e responde : «Há qualquer coisa de inseparável entre a liberdade e a solidão» – «o silêncio para quem escuta é uma multidão sábia». Mas também, continua, há qualquer coisa de parecido entre a liberdade e amor, pois a «Solidão ajuda a perceber a liberdade, mas é em companhia que a gente a saboreia».

Este é um mundo alternativo, um proto-lugar ou um espaço simbólico onde as pessoas se esqueceram da frieza das leis, dos impostos, das queixas, dos lamentos, das contas – só interessa a história e as pessoas só se salvam pela história contada por um fuzilado diferido. Contar é aqui sinónimo de respirar, porque quando esta personagem, diante de um pelotão de fuzilamento, parar de contar, a história e o livro acabarão. E mata-se a personagem, a não ser que o verbo matar tenha morrido também. E deixe de ser conjugado. Num universo mágico em que a personagem é metáfora, sonho e canto, anunciador da comunidade humana e do poder restaurador e libertador da Língua. A bem de todos os «falesianos» que somos.

Ana Margarida de Carvalho, Vítor Viçoso e Maria João Cantinho

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José-Jorge Letria, Maria João Cantinho, Luís Filipe Castro Mendes, António Carlos Cortez, Isabel Cristina Pinto Mateus, Mário Lúcio de Sousa, Ana Margarida de Carvalho, José Manuel Vasconcelos, Marinela Freitas, Paulo de Medeiros, João David Pinto-Correia, Teresa Salema (à frente).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leitura mundial de poemas e outros textos de e por autores portugueses em homenagem ao poeta Ashraf Fayadh Lisboa, 14 de Janeiro de 2016 às 18.30 horas Na Sociedade Portuguesa de Autores, Auditório Carlos Paredes (R. Gonçalves Crespo, 62. Metro: Picoas) Organização – PEN Clube Português, Sociedade Portuguesa da Autores

Apelo para uma leitura mundial em 14 de Janeiro de 2016
O Festival Internacional de Literatura de Berlim (ilb) exorta todos os indivíduos, instituições, escolas e órgãos de comunicação social, que se preocupam com a causa de justiça e liberdade, para que participem numa acção mundial de leitura de poemas escolhidos e outros textos, em apoio de Ashraf Fayadh, no dia 14 de Janeiro de 2016.
Ashraf Fayadh, um poeta e curador de arte palestiniano de 35 anos, que vive na Arábia Saudita, foi condenado à morte por um tribunal saudita em 17 de Novembro de 2015 pelo “crime” de apostasia. Foi-lhe negado o acesso a um advogado durante a detenção e o julgamento.
Fayadh tem sido uma figura-chave na divulgação da arte saudita contemporânea à escala global. Chris Dercon, director da Tate Modern e amigo do poeta, descreveu-o como “alguém que é directo e ousado”.
Para além de renunciar ao Islão, Fayadh é também acusado de blasfemar e promover ateísmo através da sua colecção de poesia, Instruções Incluídas, publicada em 2008. Fayadh assegurou que os poemas são “apenas acerca de mim próprio enquanto refugiado palestiniano…sobre temas culturais e filosóficos. Mas os extremistas religiosos explicaram que se tratava de ideias destrutivas contra Deus”.
As acusações, associadas à falta de um processo devidamente legal, mostram que não é Fayadh o culpado, mas a Arábia Saudita, de novo desrespeitando os direitos humanos e o Estado de direito. Em várias investigações, o reino é considerado como um dos países menos livres do mundo. Segundo a organização Human Rights Watch, as leis mais repressivas da Arábia Saudita criminalizam agora a livre expressão e concedem às autoridades um poder policial excessivo que não está sujeito a uma supervisão pelo poder judicial.
O caso de Ashraf Fayadh não é a história de um homem singular, mas um símbolo para todas as vítimas de um regime profundamente repressivo que tem o apoio de governos ocidentais que afirmam valorizar a liberdade e a democracia acima de tudo. Presentemente, a Arábia Saudita tem assento no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, um órgão cujos membros são supostamente os detentores dos mais elevados níveis de liberdades civis. A Arábia Saudita está aí desde 2013, graças a negociatas de voto secreto conduzidas com o Reino Unido, como foi revelado pelos Wikileaks. Outros países ocidentais continuam a permitir o fluxo de armas e legitimidade em direcção à Arábia Saudita, a fim de que o petróleo continue a fluir até eles próprios. Neste fluxo ficam capturados pessoas comuns como Ashraf Fayadh, cujos direitos passam despercebidos no reino saudita e no estrangeiro.
Por entre todas as recentes acusações emitidas por dirigentes ocidentais contra o EI, numa retórica de guerra e ameaças de retribuição, não houve uma única palavra acerca do papel da Arábia Saudita no apoio à promoção da forma virulenta do Islão praticada pelo EI. Não existem dúvidas acerca da intersecção da sua ideologia: ambos permitem métodos como chicotadas ou decapitações (neste capítulo, é um facto que a Arábia Saudita ultrapassou o EI no ano passado) infligidas a quem não partilhe os seus pontos de vista.
Com esta acção de leitura à escala mundial, exigimos que os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos intervenham em favor de Ashraf Fayadh como um primeiro passo para pressionar a Arábia Saudita para que eleve o seu nível de protecção dos direitos humanos.
Exigimos ainda que as Nações Unidas suspendam a Arábia Saudita do Conselho dos Direitos Humanos até que melhore o seu recorde abissal, no que diz respeito à repressão das liberdades civis.
Exortamos também os governos ocidentais, especialmente o Reino Unido e os Estados Unidos, a que se consciencializem dos problemas inerentes à manutenção de relações de conveniência, que se abstêm de questionar um país que é tristemente célebre por abusos sistemáticos em matéria de direitos humanos.
A Organização WWR (World Wide Reading)

Sessão de entrega dos prémios PEN para as obras publicadas em 2014, realizada na SPA em 4.12.2015

Realizou-se na SPA, em 4 de Dezembro de 2015, a sessão de entrega dos prémios PEN para as modalidades de Poesia, Ensaio, Narrativa e Primeira Obra, na presença da Secretária de estado da Cultura, Isabel Botelho Leal e dos presidentes da SPA e do PEN, respectivamente José Jorge Letria e Teresa Salema.

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Palavras iniciais da Presidente do PEN

Vai o PEN Clube Português distinguir publicamente, na sua 36ª edição anual, obras literárias numa paleta diversificada de géneros e de tendências, fruto da ponderação crítica e livre dos respectivos júris, e de cujas razões os seus porta-vozes nos darão conta já a seguir. Isto que se tornou uma evidência desde que finalmente foi tornado possível criar em Portugal um Centro PEN após tentativas frustradas nos anos 20 e 40, não o é em muitos países do globo – países em que existem Centros PEN que operam contra múltiplas formas de censura aberta ou velada. Nestas condições, parecem estar ultrapassados em Portugal os “esforços das montanhas”, nas palavras de Bertolt Brecht num poema tardio, esforços esses manifestados, por exemplo, na tentativa quase heróica de Alves Redol em 1947 para fazer vingar um Centro PEN português, Centro esse vergonhosamente reprimido pela ditadura.

Parecerá então que temos presentemente diante de nós os “esforços das planícies” – citando ainda o mesmo poema – que permitem que centremos a nossa atenção na vertente literária, sem esquecer as obrigações de cidadania internacional que caracteriza os 145 Centros PEN em todo o mundo.

Devemos porém interrogar-nos se é possível manter tal perspectiva em boa consciência. Se é certo que as sucessivas direcções do PEN vêm cumprindo esta complexa tarefa de selecção criteriosa, com o apoio das sucessivas Direcções-Gerais do Livro (Arquivos e Bibliotecas), às quais nunca estaremos suficientemente gratos, países há onde esta tarefa, ou outra semelhante, pode revelar-se uma arriscada missão. Não vos vou falar de prémios em defesa da liberdade de expressão atribuídos em países em que sabemos que esta não existe. Vou trazer-vos um exemplo europeu muito recente. Há poucas semanas recebemos a alarmante notícia do cancelamento impositivo da cerimónia de entrega de vários prémios literários (carreira, resistência à ditadura, Escritor do Ano, Poeta do Ano) que o Centro PEN albanês se preparava para entregar no Museu Nacional de História. O facto de os nossos colegas terem transferido a cerimónia para um café de Tirana deu lugar a perseguições movidas à Presidente do Centro PEN albanês, de modo a fazê-la solicitar apoio ao Comité Internacional de Escritores na Prisão, que trata igualmente de problemas de escritores perseguidos ou em risco.

A narrativa factual deste caso é, como facilmente podemos deduzir, apenas a ponta visível de uma complexa convulsão geopolítica que não deixa de fora países como o nosso, onde porventura era possível manter uma ilusão securitária articulada com garantias constitucionais. Mas é a grande literatura, assim como a grande arte, que sempre nos remeteu para os momentos trágicos da teia do mundo, momentos que só surgem de forma surpreendente a quem pretende iludi-los com a espuma dos dias da chamada cultura de massas, com um forçado aligeiramento que pretende recalcar os factores que permitem uma vida de bem-estar á custa da exploração de recursos alheios, numa arrogância neocolonialista que se vinga em explosão no coração das nossas cidades.

É aqui que se torna premente uma necessidade de prestar uma atenção sensível aos fundamentos do lado mais elementar das nossas vidas, esse que nos lembra os “esforços das montanhas” com que se defrontaram os grandes criadores de toda a história da literatura e que por isso os impediam de perder o contacto com o húmus da apreensão, com os laços da compaixão, com a medida das coisas. Devemos à literatura, àquela que nos mantém despertos, a companhia nas nossas interrogações sobre correlações e contextos, sobre os efeitos letais da indiferença hedonista, sobre a pseudo-consolação de fórmulas administrativas ou – mais grave ainda – de um didactismo pedante que passa ao largo das inquietações dos jovens e os empurra para um radicalismo de efeitos indesejáveis. Sim, são também nossos os problemas dos despojados deste mundo, de populações privadas de recursos para que possamos manter luzes acesas, aquecimentos ligados e o fácil transporte individual nas nossas cidades.

Tudo é coisa nossa, matéria nossa que contudo não pode ser trabalhada como matéria bruta e exige um empenhamento cidadão a vários níveis. Em termos literários, o desafio é colossal devido às múltiplas camadas de sentido e tratamento que se desdobram aos nossos olhos, às nossas mentes, às nossas mãos. Que fazer, como fazer? Impossível dar uma resposta a tais questões. Tão-pouco é essa a intenção destas palavras – apenas lembrar a responsabilidade que surge em cada dobra de liberdade de criação, e que se traduz na responsabilidade dos juízos sobre a mesma.

E é também por isto que devemos congratular-nos pelo facto de a Cultura ter sido reconhecida pelo governo actual como um elo primordial de sensibilização para a totalidade de questões que nos envolvem na presente situação global. Se é um facto que a literatura, a verdadeira, sempre tem sido capaz de responder a estes e outros desafios, é igualmente inegável que uma estrutura administrativa, a nível ministerial, que possa ser suporte e garante da criação artística e literária com uma amplitude que a torne acessível a mais amplas camadas populacionais, só pode ser vivamente saudada.

A nós escritores cabe-nos o desafio de criar. Mas não só. Cabe-nos também demonstrar, nas dobras dessa mesma criação, que é possível romper o aparente círculo vicioso de contaminação entre democratização e banalização. Não tendo medo das palavras, por exemplo. Ocorre-me aqui a exortação, por Montesquieu, dessa virtude republicana que não é apenas um resquício de herança clássica mas que requer a cada instante um empenhamento cívico de que não podemos deixar de tentar manter-nos à altura.

Teresa Salema

Prémio P.E.N. de Poesia para obras pulicadas em 2014

O Júri constituído por Victor Oliveira Mateus (Presidente), Casimiro de Brito e Paula Mendes Coelho decidiu, por unanimidade, atribuir ex-aequo, o Prémio PEN 2014 de Poesia às obras O Vidro, de Luis Quintais (Assírio & Alvim) e a O Tempo é Renda, de Isabel Mendes Ferreira (Labirinto de Letras).

Trata-se de duas obras, que não obstante as diferenças óbvias existentes entre elas, se apresentam com uma forte originalidade no panorama geral da poesia portuguesa contemporânea, privilegiando acima de tudo o fazer poético, o trabalho sobre a linguagem, sem os quais a poesia não existe.

Em ambos os casos se trata de leitores cultos, que ousam entender a escrita poética como um combate, como um “campo de batalha”.

Ainda que Quintais tenha confessado recentemente que O Vidro resultou sobretudo de um processo inconsciente, intuitivo, enigmático, e que esse foi o seu “Dia triunfal”, bem sabemos que tal como no caso de Pessoa, tudo se passa de maneira algo diferente. Muitos outros dias de angústia e trabalho árduo, de combate com a palavra estão provavelmente na origem deste texto, que constitui uma longa revisitação ao passado, ou antes uma curiosa “entrevista”, levada a cabo por um sujeito poético arquivista, coleccionador, anotador de fragmentos, tal como o trapeiro de Baudelaire, pretexto aqui para um diagnóstico lapidar dos tempos em que vivemos e que deixa o leitor sem fôlego, e sempre em alerta. A violência, a guerra, as metrópoles do asfalto e da solidão e um tempo fundamentalmente técnico que Baudelaire já tinha magistralmente intuído, de onde o afecto e o humano foram banidos, tudo isso surge numa forma condensada, intensa, dada a mestria com que sugere, mais do que diz, veiculando uma dimensão política, que nos apraz aqui sublinhar.

Apenas um exemplo da coerência e do apuramento da poética de Quintais. Se, em Depois da Música (editado em 2013), havia uma alusão bem explícita ao holocausto, por exemplo em poemas como “Noite e Nevoeiro”, aqui, nesta obra, surge apenas a alusão, a sugestão dessa atrocidade maior, agora fatalmente e sub-repticiamente incorporada e podendo pairar sobre o tempo presente, no que pode ser visto celaniamente como uma “escrita do não escrevível”:

“[…]De estilhaços/ é a voz de vidro e o céu deglutido, esventrado,//como a rede rota que faz precipitar a história/e engole a cidade em som e fúria e lamento//e regresso: o caminho invertido das chaminés/onde o fumo se transforma em corpos//e os corpos saem dos fornos/e começam a andar de novo na estranha terra//e dos campos saem depois serenamente.” (p. 21-22)

 Este longo poema “Vidro” vai ainda articular-se de maneira exímia com uma segunda parte intitulada “Ecolalia”, que tal como este título sugere, constitui um eco dos principais topoï da primeira, desta feita num conjunto de 21 pequenos textos em prosa poética, numa nova reconfiguração de experiências dolorosas presentes em filigrana na primeira parte.

De facto, se anteriormente a poesia de Quintais ainda conseguia riscar “a palavra DOR no quadro negro”, nesta última obra ela prova não ser capaz de apagar, de eliminar essa dor. A “imprecisa melancolia” (título da primeira obra de 1995) transformou-se em “negro sol”. Com efeito, o olhar melancólico e alegórico do poeta flâneur, do trapeiro baudelairiano é aqui levado às últimas consequências, restando-lhe apenas recompor os estilhaços que sabe desprovidos de significado, teimando em reconfigurá-los na esperança de algo novo, de algum consolo que todavia sabe não existir, muito menos quando o sujeito poético se imagina a responder a um filho:

“E ao teu filho?//Dir-lhe-ás que não há alma,/que um sopro suportando a coerente//carne sobre as suas espáduas/é maligno subterfúgio?”(pp.37-38)

II

Entre poesia e prosa, a escrita torrencial de Isabel Mendes Ferreira desafia a capacidade perceptiva do leitor, confunde deliberadamente a intelecção sempre tão ávida de linearidade e de um sentido a dar-se sem pejo nem véus, joga – através de um cultismo denso e de um sincretismo temático – com a propagada necessidade de univocidade e/ou de inteligibilidade imediata. A poeta retoma assim a ideia, tão cara à modernidade, de tecedura poética e, a partir daí, ensaia uma arquitectura singular e heterodoxa, pelo que não hesita em deitar mão a todo o tipo de recursos estilísticos: assonâncias e exercícios de paronímia (Cf. p 52: arrasta/ arrasa); repetição de palavras (Cf. p 170: fiz-me inóspito. fiz-me medo); expressões rondando o jargão (Cf. p. 110: fumo de fio a pavio), contrastando muitas vezes com um registo fortemente erudito…. Aliás, não é por acidente que o título desta obra refere a imagem da renda, e essa urdidura não é apenas formal, ela remete igualmente para um trabalho da memória, simultaneamente labiríntico e aracniano, onde os temas se aprofundam, se abandonam – muitas vezes abruptamente – e se retomam como um rendilhado feito no tempo e a partir do tempo. Renda e não rede, que envolve… sem aprisionar. O tempo é, portanto, o solo matricial desta poesia, assim como o aro que emoldura toda escrita poética: “e o tempo é uma variável que não dominamos. não dominaremos nunca. como se viajássemos numa pequena barca por mar/ encapelado. umas vezes somos salvos e outras/ engolidos pelas águas.” O tempo, ora na sua dimensão salvífica, ora como abismo destruidor, é o território onde a existência se abre – e neste ponto é impossível não nos recordarmos de algumas das principais teses de Heidegger! – como forma de “ser-para-a-morte”, provocando no sujeito poético momentos de alegria serena e – muitas vezes também – de uma angústia desintegradora: “O tempo é renda no ventre plano da saudade/ não espero nada. sou assim como a desintegração. evento/ cardume película e animal de infância “ (p. 107).

Ciente de que é da “casa dos afectos que a palavra chega”, trata-se nesta escrita de “cantar os signos”, num texto sempre aberto “profano e sagrado; profundo e raso”, e de “recolher os despojos. como quem desmente o texto e a voz num deserto que já foi corpo antigo e agitação de falcões inquietos.” (p.60)

 Relatores: Victor Oliveira Mateus, Paula Mendes Coelho

Prémio PEN Clube Português de Ensaio, referente a livros publicados em 2014

Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho, Porto Editora, 2014.

O júri do Prémio PEN Clube Português de Ensaio, composto por José Pedro Serra, Paula Cristina Costa e Ricardo Gil Soeiro, decidiu atribuir o prémio, por unanimidade, a Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho, livro publicado pela Porto Editora. Estamos perante uma obra que em muito excede o escopo do mero guia prático de escrita de ficção que se anuncia no subtítulo. Assumindo-se, embora, como uma vigorosa réplica à proliferação dos manuais de escrita criativa (e à decorrente simplificação do fenómeno literário e da experiência da criação ficcional que aqueles, não raras vezes, acarretam), a presente obra apresenta uma fértil re-leitura das matérias atinentes ao universo da escrita ficcional, revisitando, com agudeza e elegante erudição, alguns dos mais emblemáticos conceitos trabalhados no seio dos Estudos Literários. Com efeito, Mário de Carvalho demora-se numa prismática reflexão em torno do cânone e do repertório, da contemporaneidade ou do imperativo da originalidade, da depuração do gosto ou do pacto ficcional, nunca deixando de aliar, de um modo extremamente produtivo, a dimensão empírica da sua experiência de escrita a uma dimensão mais conceptual que nunca abandona. Na “Nota Prévia” é-nos confidenciado que “O autor não tenciona, nem de longe, nem de perto, atrever-se ao terreno da teorização narratológica e visa muito aquém dos estudos literários. Pretende tão-só, num itinerário vagamundo, desvendar uns poucos caminhos, anotar-lhes as curvas e contracurvas, prevenir dos salteadores e trapaceiros, e indicar algumas razoáveis estalagens” (p. 11). O tom que aqui se esboça constitui, efectivamente, fiel prelúdio para a abordagem adoptada pelo ensaísta ao longo das páginas em que se espraia a sua reflexão simultaneamente perscrutante e irónica. Reconhecemos, pois, nesta obra uma meditação despojada de grandiloquência, praticando aquilo a que chama dúvida sistemática, nisso se aproximando da sabedoria sem arrogância de um Montaigne. Mário de Carvalho brinda o seu leitor com um conjunto de intuições, apontamentos e advertências, sem nunca redundar na cristalização do registo prescritivo. Socorrendo-se embora de um alargado leque de referências de índole teórica-crítica (fruto de um profundo saber acumulado), o autor limita-se (o que não é tarefa menor) a traçar linhas de fuga, a sugerir pontos de vista, a delinear hipóteses de pensamento. Sendo que é justamente para esse multi-perspectivismo que o título da obra aponta, tal não se traduz numa fraqueza conceptual, antes concorre para a abertura da sua palavra plurívoca. Ensinando-nos, na esteira de Adorno, que “a verdade é constelação em devir”, o livro revela um notável carácter orgânico, plasmado numa estrutura de 6 capítulos que, por sua vez, se encontram subdividos em 59 pontos práticos. Texto de difícil classificação genológica, Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão põe em cena, numa prosa plena de rigor e de imaginação, um diálogo entre alteridades: a do leitor, a do autor e a das multíplices vozes que este convoca para compor o palimpsesto da sua memória literária. Reconhecemos nesta obra de Mário de Carvalho a generosidade da partilha de um segredo, “o segredo, o »abre-te, Sésamo« da criação literária”, como nos diz na página 275, “fazer com que as coisas sejam outras, como se sentidas pela primeira vez, únicas e especiais, tocadas de mistério e assombro, de riso ou reflexão.” É nesse sentido que o livro que agora temos o prazer de premiar se assume, afinal, como irradiação plural de sentido, auscultação vibrátil sobre a literatura, interrogação que procura desarmar; em suma – ensaio genuíno.

Os membros do Júri de Ensaio: Ricardo Gil Soeiro, José Pedro Serra, Paula Cristina Costa

 

Hotel (Tinta da China, 2014), de Paulo Varela Gomes, Prémio Narrativa do P.E.N. Clube Português

De entre as obras a concurso, publicadas no decorrer do ano de 2014, o júri do Prémio do P.E.N Clube Português de Narrativa (Rita Taborda Duarte, Paula Morão e Francisco Belard) decidiu, unanimemente, distinguir a obra Hotel, de Paulo Varela Gomes, a segunda incursão do autor no domínio da ficção narrativa, depois do seu romance de estreia, O Verão de 2012, editado também pela editora Tinta da China.

   Hotel salienta-se por ser uma obra munida de uma escrupulosa organização narrativa e estilística,  como se de um rigoroso projecto arquitectónico se tratasse; toda uma estrutura compositiva sustenta o livro,  expondo-o em dois planos distintos que se intersectam: um que explora,  literalmente,   a disposição do espaço físico em que  história se move ─ o cenário do hotel,  antigo palacete do início do século XX,  sui generis,  mesmo enigmático,  enquanto edifício e particular projecto de arquitectura;  e outro,  sempre a par do primeiro,  nele enraizando, afinal, e que dá conta das várias circunstâncias e condições do voyeurismo,  fazendo sobressair,  no livro,  uma tensa ambiguidade entre o acto de ver e a capacidade de mostrar, num permanente conflito entre o que se expõe ao olhar,  e o que se mantém oculto.

Envolvendo toda a narrativa numa extensa, mas subtil, reflexão teórica, conferindo-lhe o enigmatismo que o hotel, o espaço físico em que a narrativa se situa, por si só sugere, é de relevar que o próprio enredo e a composição estilística do romance simulam esta mesma ambivalência,  exibindo, em parte,  a própria construção ficcional. O narrador vai desvelando as suas estratégias narrativas, não ocultando as fundações e os alicerces que sustentam o texto. Aliás,  este procedimento que desvenda a composição estrutural  do romance é bem evidente na nomeação explícita de alguns capítulos do livro, a saber «o hotel,  continuação», «e agora o fim aproxima-se»  ou  «O fim da história», fazendo sobressair próprio processo do livro, escrevendo-se, in fieri.

Não é simples (nem importante, porque isso faz parte da própria edificação arquitectónica do romance)  identificar  distintamente o cerne temático do livro. Por um lado, é relatada a história de Joaquim Heliodoro, estranha personagem de um excessivo tradicionalismo, de débil compleição física, e que compra um palacete (também ele com um recorte espacial muito peculiar),  para nele edificar um hotel nada convencional;  por outro lado,  essa mesma narrativa primária sobressai, essencialmente, como uma admirável oportunidade para  revisitar os modos de edificação e percepção do espaço físico e seus labirintos ocultos. E é,  então,  a questão do olhar, daquilo que está ou não na  «periferia da visão» (citando um outro capítulo do volume) que confere uma rara unidade a Hotel, de Paulo Varela Gomes.  Da pornografia,  ao voyeurismo,  à escopofilia,  passando pela arquitectura,   evidencia-se, na obra, por vezes, também uma subtil necessidade da percepção da literatura, mesmo da poesia, no fundo da cultura, como suporte estrutural, fundacional, da própria vida.  Encerrado neste hotel,  que oculta, afinal, o mistério da sua construção arquitectónica,   o livro,  em simultâneo, também é o reflexo de um enigma oculto nas facetas da sua personagem central, Heliodoro,  extensível, também,  às outras figuras que em seu torno gravitam. O resultado é um invulgar jogo especular entre narrativa e narração, jogo  por vezes labiríntico,  dir-se-ia mesmo quase escheriano, pela exímia metamorfose do espaço fechado em infinito, ou mesmo pela surpreendente transformação de um espaço físico em espaço psíquico. Todos estes aspectos que convidam a uma densa reflexão literária conferem a Hotel um carácter único, original, que, no entender do júri do PEN Clube, obriga a um lugar de destaque na Literatura Portuguesa.

O júri: Rita Taborda Duarte, Paula Morão, Francisco Belard

Primeira Obra – Ex-aequo:

Susana João Carvalho, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Texto editora-Leya, 2014.

É com grande satisfação que o júri do Prémio Primeira Obra do Pen Clube Português, coordenado pelos presidentes dos júris que tiveram em conta as recomendações de todos os seus membros, decidiu atribuir este Prémio a duas obras em ex aequo, e por unanimidade, a saber, ao romance de Gabriela Ruivo Trindade, Uma Outra Voz, da editora Leya, e à obra de Susana João Carvalho, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, da Texto editora-Leya. O júri decidiu que ambas as obras reuniam as condições essenciais para a atribuição do prémio, evidenciando ímpar qualidade de escrita e um fulgor de pensamento que as tornam inequívocos exemplos de excelência literária. A obra de Susana João Carvalho resulta de uma dissertação de Mestrado, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo vindo a lume como o 5º Volume da Colecção António Lobo Antunes/Ensaio, sob a coordenação de Maria Alzira Seixo. O presente volume propõe-se examinar os efeitos visuais na obra de António Lobo Antunes. Com feito, é o topos do olhar que concita o labor da ensaísta, uma linha de reflexão que, no âmbito dos estudos antunianos, tem sido menosprezada em favor do amplamente escrutinado motivo da polifonia. Estruturada em cinco capítulos, todos eles subordinados ao ponto cêntrico da temática visual nos romances antunianos, a presente obra é particularmente convincente na demonstração que faz da necessidade de se compulsar criticamente a dimensão visual da escrita antuniana. Para o efeito, Susana João Carvalho centra-se no denominado “ciclo das epopeias” (constituida pelas obras Explicação aos Pássaros, 1981; Fado Alexandrino, 1983; Auto dos Danados,1985; e As Naus, 1988), embora a análise seja enriquecida pela convocação de peças cronísticas, como “O coração do coração” ou “Receita para me lerem”. A diversidade de referências de que se vai socorrendo e a amplitude das fontes conceptuais a que faz apelo não ferem a coerência do edifício argumentativo, antes concorrendo para a consolidação do seu desiderato fundamental – a inquirição em torno dos processos de representação que sustentam a dimensão da visualidade da ficção antuniana, convocando diálogo com diferentes artes visuais como a fotografia, o cinema ou a pintura. Ao capítulo propedêutico em torno do ver sucede a “fisionomia das imagens”, compulsando-se os contornos fotográficos, especulares e fílmicos, abrindo-se posteriormente a leitura sob o signo do naufrágio. Os dois capítulos finais sublinham o carácter pictórico da composição antuniana, conduzindo-nos da luz da épica às sombras do trágico e às imagens-espectáculo que, projectando uma imagística grotesca, agudizam o pendor trágico desta escrita. Como argumenta prescientemente Susana João Carvalho: “O próprio modo de narrar antuniano, com a fragmentação do discursivo narrativo, a confluência de várias vozes e de diferentes correntes de consciência, a torrente imagética de uma escrita através da qual irrompe “a força pulsional da vida e dos afectos na desordem delirante das palavras” consegue sugerir esse indizível caos que é o naufrágio e impor a deriva ao próprio leitor, assim lançado numa difícil travessia de sentido” (p. 89).

Os membros do Júri dos Prémios PEN-2015

Uma Outra Voz (Leya,2014,) de Gabriela Ruivo Trindade

 O júri do PEN Clube Português decidiu, por unanimidade, propor Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, para a distinção «Primeira Obra», destacando a singularidade com que a intriga do romance se estrutura, ao conduzir o leitor por um périplo, que atravessa todo o século vinte em Portugal. Quadros da mais recente História Portuguesa, desde a Primeira República, passando pelo fascismo e a guerra colonial, e depois pela liberdade democrática, são revisitados na obra, a partir da figura do benemérito republicano de Estremoz, Mariano Serrão. Na esteira de uma tradição narrativa não sequencial, que assume, para um mesmo tema, múltiplos narradores e, consequentemente, diversos prismas, o leitor acede a cinco diferentes vozes com perspectivas necessariamente díspares acerca do mundo, a um tempo real e ficcional, que, em seu torno, se vai urdindo.

Será de salientar, como carácter distintivo de Uma Outra Voz, a agilidade com que se concebe e organiza narrativamente as diversas focalizações ou pontos de vista. Assim, a obra depressa se torna uma teia polifónica, exibindo cenas descontinuadas, que apresentam, no entanto, pontos de relação entre si; e é por meio desta estrutura formal ─ base constitutiva do romance ─ que as personagens são evocadas, explorando posicionamentos diferentes sobre os mesmos contextos ou situações, abrindo caminho a narrativas secundárias, que tornam o livro um mosaico de pequenos acontecimentos e de figuras, que ficcionalmente cruzam cenários reconhecíveis, referencialmente identificáveis, do próprio país.

Unindo estas vozes ─ cinco falas soltas ─ e adensando-as, em simultâneo, é de evidenciar, como móbil de reorganização dos diversos planos em que a narrativa se estrutura, a exibição, no final do livro, do diário escrito pelo punho do próprio protagonista, aquando da sua estadia em Angola. Esta estratégia formal que sustenta o texto acaba por atribuir uma assinalável consistência às diferentes personagens, que se fazem ouvir ao longo da obra, contribuindo para uma interpretação ironicamente reflexiva do próprio título Uma Outra Voz. Ao recusar a previsibilidade de uma sequência linear, todo o romance adquire uma espessura que é distintivamente acentuada pela permanente indefinição entre o carácter histórico do livro e a sua ficcionalização. E a corroborar esta percepção de que a história enraíza numa forte consciência estrutural, enquanto discurso, será também de recordar os dois momentos paratextuais ( peritextuais, segundo a definição de Genette) que balizam a obra: por um lado, logo no início, uma árvore genealógica que orienta o leitor pelos anos (quase um século) que o romance percorre, e por outro, no final, as fotografias de época, reais, assim como o texto, também real, concreto, do elogio fúnebre de João Francisco Carreço Simões (familiar da autora), figura central em torno de quem gravitam as várias perspectivas que enformam o livro.

Estes enfoques múltiplos em permanente correlação emprestam, consequentemente, ao romance de Gabriela Ruivo Trindade uma notória espessura que cartografa a História mais recente de Portugal, conjugando o mundo particular, individual, regionalista, até, de uma família, com a vida social, colectiva, nacional de um país. Esta riqueza de contrastes que se complementam na bem urdida estrutura polifónica do romance transforma Gabriela Ruivo Trindade num valor a literário a seguir com atenção no mais recente panorama editorial português, que o júri não pôde deixar de salientar.

Os membros do Júri dos Prémios PEN-2015

 

Traduzir é preciso: nota sobre o 81º Congresso do PEN Internacional, realizado em Québec City, de 13 a 16 de Outubro de 2015

 

“Empresta-me uma língua” – assim principia o poema de Djibril Hamet, que chegara ao local do Congresso e Assembleia-Geral anual para ter a alegria de ver o seu Centro admitido nessa família que entretanto conta mais do que 150 membros /Centros. Uma língua para saborear os gostos, para falar todas as línguas – reza o poema. Ao inverso do seu colega de Mali, Djibril não chegou a saborear o acolhimento dado pelos seus colegas, sobretudo depois de saberem que se encontrava no hospital, gravemente doente. Já depois de terminados os trabalhos, acabou por falecer, vítima de uma leucemia não detectada no país de origem, vítima da ausência da mais elementar assistência médica, num país explorado pelos seus recursos do subsolo.

Trata-se de um “assunto do PEN?” Claro que sim. A defesa da liberdade de expressão tem como base a criação das condições de possibilidade de uma vida digna para traduzir e criar em liberdade – tal foi o tema deste Congresso e desta Assembleia acolhidos no nicho francófono e autóctone do Canadá. As três cadeiras vazias estavam lá para o lembrar – nos 3 dias da Assembleia homenageou-se o blogger e editor Raif Badawi, da Arábia Saudita (na presença da mulher e dos 4 filhos pequenos), o poeta Amanuel Asrat da Eritreia e o hondurenho Juan Carlos Arsenal Medina. Mas não só de escritores e jornalistas perseguidos se ocupa o PEN, mas também de línguas minoritárias, cujo estatuto deve ser reconhecido como solo de criação literária – o occitano, por exemplo, objecto de uma resolução contra o menorização que lhe é votada por franceses e italianos. Mas também a língua portuguesa, vítima da guilhotina trituradora de um grafolecto computadorizado, se viu mencionada através de uma resolução apresentada pelo Comité de Tradução e Direitos Linguísticos, a quem se deve esse documento único sobre o estatuto e os direitos dos tradutores, que foi aprovado – tal como as resoluções – e se tornará num útil instrumento de trabalho e de pressão.

O que fica então de quatro dias de júbilo e tristeza, agitação e cumplicidade? Como as folhas ruivas que na floresta canadiana se vão transformando em húmus, a vida do PEN toma agora um novo rumo com a eleição de uma nova presidente, Jennifer Clement do Centro do México, perfeitamente bilingue em inglês e espanhol e com larga experiência de intervenção nas causas que mantêm aquele país como refém nas últimas décadas. Debateu-se, numa sessão animada pela indignação e em que pontificou o jornalista de guerra Chris Hedges, os condicionamentos dfa liberdade de expressão pelas corporações mediáticas. Foi dado o prémio New Voices Award à jovem escritora galesa Rebecca F. John. Homenageou-se, numa sessão pública infelizmente desertificada devido à hora tardia, o empenhamento do presidente cessante, John Ralston Saul, nos últimos seis anos – foram-lhe oferecidas primeiras edições dos primeiros presidentes do PEN H.G. Wells e John Galsworthy. E na recém-inaugurada Maison de la Littérature, fascinante restauro de uma antiga igreja da comunidade presbiteriana na qual só as cores do papel das livros sobressaíam no branco, lemo-nos e ouvimo-nos mutuamente numa “Babel” que durou até perto da meia-noite e nos reconforta sobre o sentido de o PEN existir, muito em breve celebrando o seu primeiro centenário. TS

Imagens: As 3 candidatas à presidência – Vida Ognjenovic (Sérvia), Zeynep Oral (Turquia), Jeniffer Clement (México); a família do blogger Raif Badawi; a nova equipa do Board (direcção) do PEN Internacional

 

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Declaração de Québec sobre a Tradução, as Tradutoras e os Tradutores literários

(aprovada por Unanimidade no 81ª Congresso do PEN Internacional, em 15 de Outubro de 2015, Québec)

  1. A tradução literária é uma arte de paixão. Portadora de valores de abertura, ela permite ascender ao domínio universal enquanto vector privilegiado do diálogo entre as culturas. É um factor de paz e liberdade, bem como um baluarte contra a injustiça, a intolerância e a censura.
  2. As culturas não são iguais face à tradução. Algumas delas traduzem por opção, outras por obrigação. A tradução está associada à defesa das línguas e das culturas.
  3. As tradutoras e os tradutores, ao respeitarem os autores e as obras originais, não têm porém como mero objectivo a reprodução de um texto: enquanto criadores de pleno direito, eles prolongam-mo e fazem-no avançar. Mais do que mensageiros, eles são portadores da voz dos outros, sem perder por isso a sua. Defensores da diversidade linguística e cultural, eles empenham-se na defesa de autores, estilos e grupos marginalizados.
  4. Os direitos das tradutoras e dos tradutores devem ser protegidos. As instâncias governamentais, os editores, os meios de comunicação e os empregadores devem reconhecer e nomear claramente as tradutoras e os tradutores, respeitar o seu estatuto e as suas necessidades, assegurar-lhes uma remuneração justa e condições de trabalho dignas, seja qual for o suporte utilizado – papel, digital, áudio, vídeo.
  5. A integridade física e a liberdade de expressão das tradutoras e dos tradutores devem ser sempre garantidas.
  6. Enquanto autores de criação, dotados de um saber que os distingue, as tradutoras e os tradutores devem ser respeitados e consultados em todas as questões relativas ao seu trabalho. As traduções pertencem a quem as realiza.

Resolution on the Portuguese language, presented by the Portuguese PEN Centre and the T&LRC

The Assembly of Delegates of PEN International, meeting at its 81st World Congress in Québec City, Canada 13-16 October 2015

States that since 2012 the enforced implementation of the so-called “Orthographic Agreement of 1990” (OA 1990) has caused serious damages to the European Portuguese, which is spoken and written by the peoples of Portugal, Angola, Mozambique, Cape Verde, Guinea-Bissau, São Tomé and Príncipe and East Timor. Yet none of these countries (except Portugal) has officially “adopted” the deep changes in the written language, which mean the elimination of most Greek and Latin roots and therefore a growing distance from other European languages.

 

Further we state that Brazil has gone through a similar process since the decade of 1950, according to an intention of simplifying their Portuguese variant and reduce a high quote of analphabetism. Yet the spelling reform that is being imposed since 2011-2012 to the Portuguese people at the administration and the school system has nothing to do with the Brazilian reform, which we fully respect, because what is at stake is the difference of the spoken and written language by two deeply distinct  peoples with merely 300 years of common (colonial) history.

 

We repeatedly stress that there has never been problems in understanding each other, and that the imposed pseudo-approach by the OA 1990 merely produces spelling chaos with serious consequences for the pronunciation and the learning process of further European languages in which those Greek and Latin roots have not been cut in the name of alleged “unifications” or “simplifications”. Since 2012, Portuguese PEN has organized or co-organized Forums on this issue and presented each year resolutions or open letters at the International or national PEN Assemblies. Such texts have always been, after approval by the PEN membership,, sent to the Government and several authorities, as well as to the media.

 

PEN has reached the status of an authority in this issue, also confirmed by the majority of Portuguese writers who keep choosing European Portuguese as their common vehicle of expression. Portuguese PEN keeps defending their liberty to choose this option and regards with deep concern any imposition by publishers, who do not always respect the expressed will of a writer to take his or her spelling option. We also regard as a grievous fallacy the pseudo-argument according to which so much money has been spent on such a “reform” that it would be useless to “go back” to the 1945 reform, that is, to European Portuguese.

 

A movement towards a referendum on this issue is now running, and in this election year (for a new Parliament), as well as for a new president at the beginning of 2016. We shall not fail to ask all candidates about their position on such an important issue. We are willing to use all democratic allowed means to question such an irrational “diktat”.

 

Therefore, Portuguese PEN and PEN International appeal to the Portuguese authorities to face the serious damages caused by such a “reform” to the written and spoken language of ten million people and to have the courage to recognize that there are ways to stop those damages by suspending such an imposition and allowing an independent commission lo analyze the consequences.

Prémios PEN para as obras publicadas no ano de 2014, com o apoio da DGLAB

POESIA:

Isabel Mendes Ferreira, O Tempo é Renda (Labirinto de Letras), ex-aequo com Luís Quintais, O Vidro (Assírio & Alvim).

Júri: Victor Oliveira Mateus, Casimiro de Brito, Paula Mendes Coelho.

ENSAIO:

Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão (Porto Editora).

Júri: Ricardo Gil Soeiro, José Pedro Serra e Paula Cristina Costa.

NARRATIVA:

Paulo Varela Gomes, Hotel (Tinta-da-China).

Júri: Rita Taborda Duarte, Paula Morão e Francisco Belard.

PRIMEIRA OBRA:

Gabriela Ruivo Trindade (Narrativa), Uma Outra Voz, ex-aequo com Susana João Carvalho (Ensaio), António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar (Texto – Leya).

Júri: Membros dos 3 júris.

 

 

Short list dos prémios PEN, patrocinados pela DGLAB e divulgada em 28.9.2015, para as obras de Poesia, Ensaio e Narrativa publicadas em 2014:

Short list dos prémios PEN, patrocinados pela DGLAB e divulgada em 28.9.2015, para as obras de Poesia, Ensaio e Narrativa publicadas em 2014:

Poesia

A Misericórdia dos Mercados, de Luís Filipe Castro Mendes (Assírio & Alvim);

Entrepoemas, de J. Alberto de Oliveira (Afrontamento);

Os Armários da Noite, de Alice Vieira (Caminho);

O Tempo é Renda, de Isabel Mendes Ferreira (Labirinto de Letras);

O Vidro, de Luís Quintais (Assírio & Alvim).

Ensaio

António Lobo Antunes. A Desordem Natural do Olhar, de Susana João Carvalho (Texto – Leya);

Estética da Dança Clássica, de Frederico Lourenço (Cotovia);

Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa, de Fernando Cabral Martins (Assírio & Alvim);

Nova Teoria do Sebastianismo, de Miguel Real (D. Quixote);

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora).

Narrativa

Hotel, de Paulo Varela Gomes (Tinta-da-China);

Os Memoráveis, de Lídia Jorge (D. Quixote);

Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio (D. Quixote);

Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares (Porto Editora);

Vinte Degraus e outros Contos, de Hélia Correia (Relógio D’Água).

Observação: Os nomes dos júris apenas serão divulgados depois de anunciadas as obras vencedoras dos Prémios PEN 2014.

 

Ana Hatherly: entre a pintura e a poesia

ana haterlyO PEN Clube Português lamenta profundamente o desaparecimento de uma das suas sócias e co-fundadoras, Ana Hatherly, figura maior da cultura portuguesa contemporânea, nomeadamente a partir de 1959. A autora pertenceu aos corpos gerentes do PEN até 2009, tendo sido também Presidente do Committee for Translation and Linguistic Rights of International PEN. Nascida no Porto, no ano de 1929, Com um percurso versátil, a sua obra atravessa o cinema, as artes plásticas, a poesia e a prosa, cruzando e estabelecendo passagens entre as diversas expressões artísticas.

Licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, a autora teve, ainda, formação em cinema (pela International London Film School) e música e tornou-se Professora Catedrática na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde foi co-fundadora do Instituto de Estudos Portugueses e dirigiu duas revistas: Claro-Escuro e Incidências. Antes da chegada à Universidade Nova de Lisboa, foi professora de Cinema no Conservatório Nacional e na escola AR.CO, em Lisboa. A sua obra cinematográfica encontra-se no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e no Arquivo da Cinemateca Portuguesa. Destaque-se ainda Revolução, Lisboa, de 1975, que foi exibido por altura dos 40 anos do 25 de Abril, no Centre Pompidou, em Paris e O que é a ciência? I e II, de 1976, e, de 1977, Rotura, Lisboa, Galeria Quadrum.

Ana Hatherly iniciou a carreira literária em 1958, tendo-se estreado com a recolha de poesia Um ritmo perdido. Em 1960 dá início à sua carreira de artista plástica, reconhecida nacional e internacionalmente. Em qualquer dos domínios literários, da poesia à prosa e ao ensaio, a sua obra é extensa, revelando uma personalidade inquieta e sempre em busca de novas formas e caminhos. O seu nome aparece, sobretudo, ligado à vanguarda da poesia e à poesia experimental (tendo sido autora do primeiro poema concreto em Portugal), durante as décadas de 60 e de 70. Ana Hatherly explorou as mais diversas potencialidades da mancha da escrita e da caligrafia, transformando a sua obra em poesia visual e destacando-se no panorama da vanguarda das artes e da poesia portuguesas. Segundo a própria, “a literatura de vanguarda, que surge na sociedade burguesa, é antiburguesa” e a sua atitude é claramente política, nesse sentido, como uma ruptura face aos valores do passado. Mais tade, a sua pesquisa com as formas artísticas do Barroco permitiu-lhe explorar as infinitas possibilidades de trabalho com a escrita e a poesia, associando-a às artes plásticas e impulsionando caminhos surpreendentes na poesia e na arte portuguesas. Por outro lado, como se pode ler no arquivo digital da PO. EX, uma revista em que participaram António Aragão, Herberto Helder, Ernesto Melo e Castro e a própria Ana Hatherly (donde resultou uma exposição e um livro), a obra da autora é caracterizada por uma intensa auto-reflexividade é visível em ciclos de permutações paródicas, no desenvolvimento de formas como o poema-ensaio e a micro-narrativa. Tisanas (obra que é apresentada como work in progress e a última edição/reimpressão é de 2006, é bem a expressão desse trabalho formal, que a autora procurou teorizar. Todavia, a obra de Ana Hatherly, ainda que vivamente marcada pelo experimentalismo, não pode ser reduzida e a própria sofria com alguma incompreensão perante esse facto. O seu trabalho, ainda que sempre marcado pelo jogo conceptual que impulsionou as suas descobertas, desenvolve-se a partir de outros núcleos, que procurou desenvolver em Tisanas, num trabalho de intertextualidade que era feito a partir de autores como Bernardim Ribeiro, Camões, Mallarmé e James Joyce. Não podemos esquecer, ainda a presença de Eros, em Eros Frenético. Não podemos esquecer, ainda, essa obra-prima que é a sua novela O Mestre, escrita em Paris e que tem por cenário o Portugal do Estado Novo.

As obras de Ana Hatherly encontram-se integradas nos principais Museus de Arte Contemporânea portugueses e em colecções privadas nacionais e estrangeiras, nos seguintes Museus e colecções: em Lisboa, no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian (CAM); na colecção Caixa Geral de Depósitos; na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD); no Museu do Chiado; no Museu da Cidade; na colecção PORTUGAL TELECOM, e na colecção Berardo. No Porto, a sua obra plástica está ainda representada no Museu de Serralves; no Museu Soares dos Reis; na Fundação Abel Lacerda, Museu do Caramulo; na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão; no Museu do Funchal, na Madeira, no Archiv Sohm, em Frankfurt, e na Marvin Sackner Collection, em Miami.

Com o livro de ensaio O Ladrão Cristalino: aspectos do Imaginário Barroco, em 1998, conquista o Premio de Ensaio da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) e, com a sua obra de poesia Rilkeana, é galardoada com o Prémio de Poesia do PEN Clube Português. Ainda em 2003 lhe é atribuído o Prémio de Consagração da APCL (Associação de Críticos Literários Portugueses), pela sua obra O Pavão Negro. 

Também a Sociedade Brasileira de Língua e Literatura a distinguiu, no ano de 1978, com a medalha Oskar Nobiling por serviços distintos no campo da literatura. Em 2003, foi distinguida com os Prémios de Poesia Evelyne Encelot, em França, e Hannibal Lucic, na Croácia. Em 2009 foi distinguida como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O espólio da autora está à guarda da Biblioteca Nacional, no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea e parte da biblioteca pessoal está na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.

De acordo com Ana Marques Gastão, estão no prelo a tradução para língua francesa da novela O Mestre, assinada por Catherine Dumas, um volume de homenagem publicado por iniciativa da Universidade Federal Fluminense no Brasil (UFF, Niterói) e outro de ensaios, pela Theya, que completa a trilogia sobre o Barroco, intitulada Esperança e Desejo – Aspectos do Pensamento Utópico Barroco. A Mão Inteligente, um filme de Luís Alves de Matos, Lisboa, debruça-se sobre a sua obra, dizendo respeito essencialmente à sua obra artística.

Quem se lembra de Ana Hatherly, relembra a sua postura combativa e coerente, pautada pelo seu amor aos valores humanistas, que defendeu corajosamente. Relembra também o seu olhar claro e inteligente, a sua curiosidade e inquietude férteis. Até sempre, Ana Hatherly!